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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Israel e o Mito da Terra Santa






O genocídio que atinge o povo da Palestina será recordado pelo tempo adiante como uma mancha repugnante na historia da humanidade.

Menos transparente é outra realidade. A criação do Estado de Israel, responsável pela tragédia que nos reúne nesta Conferencia, assenta sobre mitos que deturpam a historia.
A acumulação e difusão desses mitos está na origem de situações, atos políticos e crimes que tornaram possível a repetição no inicio do século XXI de uma monstruosidade civilizacional. Apoiado pelos EUA o Estado construído por vitimas do holocausto nazi concebe e executa um moderno holocausto.
Uma pirâmide de falsidades e mentiras sinaliza a estrada do tempo que conduziu a chacinas como as de Sabra, Shatila e Jenin.
Na base delas está o mito básico, o mais trabalhado de todos, aquele que desencadeou o movimento do regresso dos judeus à "Terra Santa dos antepassados".
A esmagadora maioria dos israelenses que vivem no Estado de Israel e se assumem como judeus não descendem do povo que invocam. A saga da diáspora judaica, alavanca das teses de Theodor Herzl que promoveram a "volta à pátria perdida", foi edificada sobre uma inverdade histórica.

Jerusalém era uma cidade pequena quando, por duas vezes, a sua população, maioritariamente de judeus, foi expulsa pelos Romanos. Não eram mais do que alguns milhares os que dela saíram após a revolta esmagada por Tito, no ano 70. Adriano, no século II, arrasou totalmente Jerusalém como castigo de nova insurreição. Os judeus deportados após a mortandade foram também poucos.


Não há milagres na multiplicação dos seres humanos. Olhamos hoje para os askenazis, vindos da Alemanha, da Polônia, da Europa Ocidental e para os sefarditas, chegados de países muçulmanos, e tudo nos seus traços fisionômicos difere, a denunciar origens étnicas diferentíssimas. Nuns e noutros, a percentagem de sangue judaico, após cruzamentos processados ao longo dos séculos, é mínima. Os primeiros tratam aliás os segundos com sobranceria, considerando-os cidadãos inferiores. E os judeus negros da Etiópia e de outros países africanos?


É a religião e não o sangue que estabelece a ponte do judaísmo entre essas comunidades e a suposta pátria de origem.


Mas, porventura, será hoje a religião o denominador comum aglutinador da nação que se diz descendente de Abraham? A resposta é negativa. Muitos judeus israelenses não praticam atualmente a religião hebraica e as suas convicções religiosas são, pelo menos, débeis.


A tradição, o culto dos antepassados, o acervo de uma cultura defendida com tenacidade e condensada na Bíblia (o Antigo testamento) aí estão as raízes do sionismo e a explicação da especificidade contraditória de um estado confessional cujos filhos duvidam (uma percentagem considerável) da existência de Deus.
É inquestionável que os antepassados dos palestinos árabes chegaram à Palestina há uns 5000 anos, subindo da Península Arábica, muito antes das primeiras comunidades hebraicas. Eram aparentados, como povos semitas vindos de um tronco comum. Uns e outros assumiam-se como descendentes de Sem e falavam idiomas muito parecidos que ainda hoje apresentam grandes afinidades.

Os primeiros fundiram-se rapidamente com algumas das tribos que povoavam a região; os segundos muito menos.


O processo de miscigenação dos antigos palestinos foi tão complexo que a própria palavra Palestina deriva dos Filisteus, descendentes dos chamados Povos do Mar, invasores arianos e não semitas.


Não cabe aqui acompanhar a história dos primitivos hebreus e as suas aventuras desde o Nilo ao Eufrates, com passagem pelo vale do Jordão. Encontramos uma síntese muito interessante no livro de Ernesto Gomez Abascal, que foi embaixador de Cuba na Síria e na Jordânia (1).


O que me parece útil recordar é que a agressividade genocida do estado de Israel tem um precedente na agressividade expansionista dos judeus vindos do Egito. Atuavam então por mandato divino, como "povo especial". Segundo o Antigo Testamento, Jeová informou Moisés de que seria dos hebreus todo o território desde o deserto até ao mar e ao Eufrates, isto é, a Palestina, o Líbano, a Síria e parte do Iraque, isto é, o hoje chamado Crescente Fértil.


Como tentaram apossar-se de tão vasta e povoada Região?


O livro de Josué iluminou-lhes o caminho: "Quando tiverdes atravessado o Jordão entrando pela terra de Canaã, afastareis do vosso caminho todos os moradores do país e destruireis todos os seus ídolos de pedra, e todas as suas imagens fundidas e destruireis todos os lugares elevados: e expulsareis os moradores da terra e residireis nela porque eu vo-la dei para que seja a vossa propriedade (cap. 33, vers 50 a 53 ). Porque tu és povo santo para Jeová, o teu deus. Jeová, o teu deus te escolheu como povo especial, mais do que todos os povos que estão sobre a terra (cap. 7, vers 6). E destruíram a fio de espada tudo o que havia na cidade; homens e mulheres, moços e velhos, até os bois, as ovelhas e os burros". (cap. 8, vers 24 e 26 (...) Subiu logo Josué e todo Israel com ele de Eglon a Hebron e combateram esta (...) matou tudo o que tinha vida, como Jeová, deus de Israel, lhe tinha ordenado. (cap. 10, vers 34 e 40).


Não faltam a Ariel Sharon, como se verifica, fontes bíblicas de inspiração. Jeová nada tinha de humanista, era um deus violento, racista, que fazia da guerra e das chacinas alavanca da historia.
A agressividade atual dos dirigentes israelenses não é, portanto, um fenômeno circunstancial. Tem raízes antiquíssimas.

O movimento sionista nasceu agressivo numa época em que contou com a simpatia da intelligentsia européia, justamente indignada com o anti-semitismo que se manifestava nos repugnantes pogroms da Polônia e da Rússia.
Nos finais do século XIX, na Palestina, então submetida ao domínio turco, 91% da população eram árabes palestinianos. Os judeus, de imigração recente, não ultrapassavam 50 mil. Quase 99% das terras pertenciam aos camponeses árabes. Mas os pioneiros do sionismo já projetavam o futuro Israel. Theodor Herzl no seu livro "O Estado Judaico", de 1896, escreveu: "em Basileia fundei o estado judaico (se hoje dissesse isso em voz alta todos me responderiam com uma gargalhada). Talvez dentro de cinco anos, mas certamente dentro de cinquenta toda a gente o saberá".

Em 1914, Chaim Weizman, que seria o primeiro presidente de Israel, escreveu nas suas Memórias: "Na atualidade somos um átomo mas é razoável afirmar que se a Palestina cair na esfera da influencia britânica, e se a Grã Bretanha incentivar o estabelecimento de um estado judaico, então como dependência britânica, podemos esperar ter ali dentro de 25 a 30 anos, um milhão de judeus, pelo menos, e eles se encarregarão de constituir uma guarda eficaz para o Canal de Suez".


Weizman tinha os dons dos antigos profetas. O que não previu foi que ao decadente império britânico sucederia o vigoroso império norte-americano e que o Estado de Israel, imaginado por ele, se transformaria no seu cão de guarda para todo o Médio Oriente.


Israel, gerado por decisão do imperialismo britânico ao criar o chamado Lar Nacional Judaico, nasceu, não se pode negar a evidencia, de um fato colonial.


Entretanto, transcorrido mais de meio século sobre a partilha da Palestina aprovada pelas Nações Unidas, Israel é uma realidade. Os próprios revolucionários palestinos reconhecem essa evidencia. Os mais de cinco milhões de israelenses que vivem hoje no Estado judaico ali implantado não são coletivamente responsáveis pelas políticas que tornaram possível a sua formação. Israel não pode ser apagado do mapa, por mais monstruosos que sejam os crimes dos seus atuais dirigentes.


Mas a solidariedade com a Palestina árabe exige a desmontagem do edifício de mentiras históricas montado pelo imperialismo e pelo sionismo na tentativa de justificar o injustificável.


Genocídios como os de Sabra e Shatila e o recentíssimo de Jenin não foram tragédias ocasionais.


Nos últimos anos do mandato britânico as organizações terroristas israelenses Haganah, Irgun e Stern cometeram incontáveis crimes numa escalada de violência dirigida contra os árabes palestinos, então amplamente majoritárias. Segundo o censo de 46, os árabes palestinos residentes eram 1.237.000 e os judeus apenas 608 mil. E somente 8% das terras pertenciam aos segundos. O Plano de Partilha aprovado pela ONU atribuiu entretanto ao futuro estado judaico 56% da superfície da Palestina.


E que aconteceu? Os israelenses ocuparam 75% do território, inviabilizando a criação do Estado Palestino. Quando a ONU tentou fiscalizar o cessar fogo, o bando terrorista Stern assassinou em Jerusalém o conde Bernardotte, secretário geral da organização. Em tempo brevíssimo 400 mil palestinos foram expulsos das suas terras. Quase 500 aldeias foram arrasadas numa orgia de barbárie. Em poucas horas a Irgun massacrou 254 palestinos na aldeia de Deir Yassin. Aterrorizar as populações, esvaziar a Palestina de árabes era o objetivo dessas ações de terror. Mais tarde, Menahem Beguin, que foi primeiro ministro, comentou assim a chacina por ele comandada: "O massacre não somente se justificou como o Estado de Israel não existiria sem essa vitória" (2).


Sob essa apologia do genocídio transparece a política que Yossef Weitz, dirigente do Fundo Nacional Judaico, condenou numa sentença monstruosa: "Entre nós deve ficar claro que não existe espaço para dois povos neste país (...) não há outro caminho que não seja a transferência dos árabes para os países vizinhos, a mudança de todos eles; nenhum deles, nenhuma tribo deve permanecer aqui (3).


Três guerras com estados vizinhos irromperam desde a criação de Israel.


Uma Resolução das Nações Unidas, entre todas famosa, a 242, de 22 de Novembro de 1967, intimou Israel a devolver os territórios ocupados pela força das armas. Outra, fundamental também, determinou o regresso dos refugiados aos lugares de onde haviam sido expulsos pelo exercito de Israel.


A posição israelense sobre essas questões cruciais encontramo-la condensada num cínico comentário de Golda Meier: "Como vamos devolver os territórios ocupados? Não existe ninguém a quem devolver algo. Essa coisa a que chamam palestinos não existe" (4).


A história recente é melhor conhecida.


Se há uma palavra que defina bem os acontecimentos que nas ultimas décadas tiveram por cenário a Palestina é a palavra tragédia.


O Estado comandado por Ariel Sharon não renuncia ao cumprimento das profecias da Torah que apontam o caminho da violência para a realização do sonho de Eretz Israel, ou seja, a Grande Israel.


Em Tel Aviv as táticas e o discurso político mudaram ao sabor do ocupante da Casa Branca, sempre o grande aliado. Mas o objetivo de aniquilar a nação palestiniana manteve-se.


A Primeira Intifada demonstrou claramente que o povo árabe da Palestina não renuncia ao direito inalienável de construir o seu próprio futuro como nação independente, plenamente soberana, no que resta – Cisjordania e Gaza – dos territórios povoados pelos seus antepassados muitos séculos antes da chegada ali das primeiras tribos de judeus.


Seria uma solução aceitável simultaneamente por palestinianos e israelenses. Mas para isso seria, obviamente, necessário cumprir os Acordos. Ora essa nunca foi a intenção dos dirigentes israelenses.


O aparecimento exibicionista, em ato de provocação, de Ariel Sharon na Esplanada das Mesquitas, na velha Jerusalém, assinalou o inicio da Segunda Intifada e da atual escalada genocida contra o povo árabe da Palestina.


Nem a imaginação de um Sófocles ou de um Shakespeare concebeu tragédia comparável à que se abateu sobre as cidades e aldeias dos territórios governados pela Autoridade Nacional Palestiniana. Os bombardeamentos diários de áreas urbanas e rurais, a destruição das estruturas básicas da sociedade, como escolas, hospitais, edifícios administrativos, estabelecimentos comerciais, serviços de luz, água e comunicações, o assassínio de mulheres e crianças, o cerco à sede de Yasser Arafat em Ramallah, e chacinas coletivas como a de Jenin - serão pelo tempo afora recordados como exemplos da barbárie de um estado confessional responsável por uma das páginas mais repugnantes da história da humanidade.


James Petras encontra para Jenin, como analogia, o gueto de Varsóvia destruído pelas SS de Hitler. A José Saramago, a aldeia palestiniana eliminada traz à memória Auschwitz, paradigma da loucura assassina nazi.


A mim faz-me recordar ambos. O buldozer Sharon, como já lhe chamam, é, pelos, métodos e pela ideologia, um discípulo eficiente de Hitler. Creio enunciar uma evidência ao afirmar que em cada um de nós, aqui reunidos no México, por iniciativa do Partido do Trabalho e da OSPAAAL, a angustia e a indignação provocadas pelo genocídio que atinge a nação palestiniana são acentuados pela consciência de que esse crime de lesa humanidade não seria possível sem a cumplicidade e o apoio ostensivo dos EUA.


Por si só, Ariel Sharon não teria condições mínimas para empreender o seu plano de destruição da Palestina. Os seus crimes contam com o respaldo de Washington, mais exatamente do sistema de poder que governa os EUA, um sistema igualmente monstruoso cuja estratégia de dominação mundial deixa já transparecer o perigo de uma ditadura militar planetária, ou seja uma ameaça global a humanidade.


Os povos condenam com firmeza crescente o genocídio palestiniano. Mas a matança prossegue.


É financiada. Ultrapassa 3 bilhões de dólares anuais a ajuda norte-americana ao estado assassino de Ariel Sharon. A passividade dos governos da União Européia perante o genocídio é outra indignidade. Afirmam lamentá-la, mas a sua atitude é de submissão à estratégia dos EUA, que transformaram o Conselho de Segurança da ONU em dócil instrumento da sua política imperial.


A íntima aliança entre a extrema direita israelense e o governo dos EUA contribui para evidenciar o significado internacionalista e humanista da luta heróica do povo árabe da Palestina. Essa pequena e valente nação, ao resistir com firmeza homérica à tentativa de holocausto contra ela comandada pelos filhos e netos das vítimas do holocausto judeu da Segunda Guerra mundial - essa Palestina de raízes milenárias assume na realidade a defesa de valores eternos da humanidade.


A Palestina resiste. O seu povo sobrevive e multiplica-se sob o vendaval de metralha do fascismo israelense. Segundo um estudo da Universidade judaica de Haifa, no ano 2020 a população total de Israel, da Cisjordânia e Gaza terá ultrapassado os 12 milhões. Desse total 58% serão árabes palestinos. De maioria que são hoje os israelenses terão nessa época passado a minoria.


Represento nesta Conferência o Partido Comunista Português. É com orgulho que aqui lembro ter sido permanente, fraternal e incondicional ao longo do tempo a solidariedade dos comunistas portugueses com o povo épico da Palestina. Ao reafirmá-la calorosamente desta tribuna, expresso a nossa confiança inabalável na vitória final desse pequeno-grande povo que se bate hoje pela humanidade inteira.


Vocês vencerão, companheiros da Palestina.


(1) Ernesto Gomez Abascal, Palestina – Crucificada la Justicia, Editora Politica, Havana, Abril de 2002;


(2) OB.ctda, pg 203;


(3) Idem, pg 32;


(4) Idem, pg 54.



(*) Intervenção na II Conferencia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, realizada no México em 15/Maio/2002.




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Miguel Urbano Rodrigues



sexta-feira, 3 de abril de 2009

A Guerra de Gaza - A Blitzkrieg



Neste mundo, repleto de fundamentalismos, esta guerra só veio para fortalecer todas as irracionalidades possíveis. Depois dela, ficará difícil pedir que a razão vença a emoção contida nas crenças dos mártires de Maomé. A jihad, no sentido dramático dado a ela, ganhará mais força. Luís Carlos Lopes


Luís Carlos Lopes


A consciência crítica, ainda existente neste mundo de superfícies, hipocrisias e falácias sem fim, está estilhaçada nas mais diversas mídias. A terrível operação militar em Gaza vem demonstrando como é e continuará a ser difícil imaginar um mundo sem guerras, onde tremule a bandeira da paz e do entendimento entre os povos e as culturas do mesmo planeta.

Aproxima-se o fim da primeira década do século XXI e o sangue continua a escorrer pelas fissuras da história, como no passado. Mudam os lugares, aparecem novos focos e motivos. Entretanto, a busca de resolver problemas políticos por meio das armas continua sendo a alternativa usada tanto pelas nações militarmente poderosas, como pelos povos insurgentes contra as iniquidades que os oprimem. Não há, hoje, tal como no passado, como ficar neutro ou imparcial, assistindo impassível as misérias da guerra e da opressão.

Uma palavra, negada pelas mídias mais tradicionais, ouve-se vinda do terror das primeiras décadas do século XX - Blitzkrieg, diziam os germano-nazistas em um passado distante das atuais gerações. Ela seria o ato de fazer um assalto militar com resultados rápidos e devastadores. Para tal, bastaria combinar a artilharia, a infantaria, os carros blindados e a aviação. Invadir, matar, pilhar, derrotar e, se necessário e possível, apropriar-se do território visado. Não dar qualquer chance de defesa ao inimigo, que, já se sabia de antemão, não teria força sequer parecida. Pisar sobre tudo que estiver na frente, não distinguir civis de militares, explodir, metralhar, deixando na passagem colunas de fumaça e montanha de corpos. Não importa que sejam de soldados ou de guerrilheiros, de mulheres, crianças ou de famílias inteiras. Nada é respeitado. Ninguém está a salvo de tal poder de destruição.

As blitzkriegs nazistas assombraram o mundo da época. Não havia mais lei ou limite nos novos modos de fazer a guerra. As barbaridades da Primeira Guerra Mundial ficaram para trás. Tudo era válido para aterrorizar populações inteiras e torná-las dóceis, por medo, obedientes e servis ao inimigo. Curiosamente, salvo honrosas exceções, na grande imprensa falada, televisada e escrita ninguém lembra das origens históricas destas operações funestas e descrevem a guerra de Gaza como se fosse um conflito em dois exércitos nacionais.

Pobre Palestina! Ainda não conseguiu se organizar como país. Nem mesmo tem um território convenientemente demarcado e inviolável. Não possui aviação, marinha, carros de combate e nem um exército. Nos seus portos chegam o que os israelenses permitem. Não pode, oficialmente, comprar armas ou receber ajuda militar de qualquer país. No momento, quem defende esta nação em frangalhos é Gaza, uma das partes ilhadas do território palestino. Seus combatentes são membros insignes de seu povo organizado em armas para defender o que é seu. Quem os ajuda internamente, muitas vezes são crianças com pedras colhidas das ruas, lutando contra as armas automáticas mais modernas que se conhece.

Os foguetinhos russos que o Hamas vem disparando em direção de Israel, os Katyusha, são fogos de artifício se comparados com o fogo que recebem do inimigo. Atingem, na maioria dos casos, ironicamente, as áreas que, antes da ocupação, os ascendentes dos palestinos habitavam. Conseguem fazer buracos no chão ou no telhado e vitimam, aleatoriamente, sem qualquer precisão, algum desavisado que não levou a sério o rugir dos sinais dos radares. Por sinal, estes não existem em Gaza. As imagens dos estragos feitos pelas forças de cada lado, exibidas pela TV, não deixam dúvida.

Os números dos mortos e feridos de cada lado são absurdamente desiguais, mais ainda, proporcionalmente, ao que ocorreu nas tenebrosas incursões alemãs do passado. Os soldados de Israel estão entre os mais preparados do mundo. Têm o melhor material de guerra conhecido e são mobilizados por uma ideologia fanática, fundamentalista, que justifica as atrocidades que cometem em nome da defesa de seu jovem Estado-nação.

Carregam um velho estigma do passado, representado pela baixa reação dos judeus ao Holocausto. Crêem, absurdamente, que os palestinos são os seus algozes de hoje, tal como foram os nazistas no passado. Reescrevem em suas mentes da história mundial e se acreditam, ainda, como um povo eleito e vítima da perseguição que seus antepassados conheceram na chamada Shoah. Pensam que, fazendo o que fazem, estariam defendendo seu presente, seu futuro e resgatando a auto-estima de seu passado. Esquecem que fazem parte da mesma humanidade que pisoteiam sem qualquer clemência. Seus atos, como os do eixo nazifascista, terminarão sendo julgados pela história ou quiçá por verdadeiros tribunais internacionais que defendam os direitos humanos para valer.

Só um louco, fascista e negacionista, pode esquecer-se do Holocausto e da terrível decisão final - eliminação física total dos judeus nos territórios ocupados pelo eixo nazista -, decretado pelo alto-comando alemão.

Qualquer cidadão respeitável não pode fechar os olhos sobre o anti-semitismo e sobre o que foi a Shoah. Não há como não ir às lágrimas ao se ver as imagens existentes dos antigos campos de concentração e ler os testemunhos dos sobreviventes. Só que hoje, apesar de haver ainda fortes resíduos do anti-semitismo, o preconceito voltou-se mais contra os partidários de Maomé. A islamofobia é bem mais forte e significativa do que o velho preconceito contra os judeus.

Não há como sofrer vivamente e se ter o mesmo sentimento que se tinha no passado, quando se tem acesso às imagens da Palestina destroçada e de tantos outros casos espalhados pelo mundo. Ver os registros da prisão/campo de concentração em Guantânamo produz igual reação em consciências sensíveis às dores da humanidade.

Neste mundo, repleto de fundamentalismos, esta guerra só veio para fortalecer todas as irracionalidades possíveis. Depois dela, ficará difícil pedir que a razão vença a emoção contida nas crenças dos mártires de Maomé. A jihad, no sentido dramático dado a ela, ganhará mais força. Serão justificáveis atos que pouco contribuem para a causa Palestina e a defesa do direito dos partidários do Corão ser tão respeitados como os da Bíblia e os da Torah. A violência inaudita desta guerra atual terá frutos muito negativos para a paz no mundo. Ao contrário de resolver problemas e inclusive melhorar a segurança de Israel, ela jogará mais lenha na fogueira.

Os defensores das guerras, normalmente, dizem que querem alcançar a paz. Listam alguns inimigos e chegam a afirmar, como agora fizeram alguns dirigentes ocidentais, que o culpado é o Hamas. A solução, portanto, seria eliminar os guerrilheiros desta facção palestina. Entretanto, não foi o Hamas quem invadiu o território alheio e jamais este pequeno grupo, como se está assistindo, foi capaz de ameaçar a real segurança de Israel. Eles são frágeis. Cheios de coragem e de determinação, mas não possuindo meios efetivos de barrar a ofensiva inimiga. Nesta direção, o Hezbollah, no Líbano, é bem mais poderoso. Talvez, por isso, os israelenses abandonaram o front libanês e invadiram Gaza.

Do pouco que se sabe sobre o Hamas, é correto dizer que se trata de um partido político que não é populista e corrupto como outras organizações que o precederam. Seus membros são recrutados entre os jovens palestinos da nova geração. Muitos do que estão morrendo no atual conflito são médicos, professores, engenheiros, cientistas, artistas etc que, na maioria dos casos, se formaram no Ocidente e voltaram para sua terra natal. Eles são os que levam a sério o destino de seu povo e de seu país em frangalhos. Não se trata de um grupo de lunáticos seguidores de um príncipe como os que cercam Bin Laden. Tudo leva a crer que são bem radicais e tocados pelo fundamentalismo islâmico contemporâneo. Não é difícil entender que tal ocorra em uma situação tão dramática. É pedir demais que sejam absolutamente racionais, lutando contra um mundo que os oprime de modo radical.

Há quem diga que esta guerra tem objetivos mais longínquos, na verdade quer-se atingir a Casa Branca, sem disparar um tiro no território do padrinho do Norte. Ela levaria o novo governo eleito a se definir frente os problemas do Oriente Médio, apoiando incondicionalmente Israel, como Bush o fez. O conflito mexeu com o mundo, obrigando que inúmeros países se pronunciar. Todavia, ainda não é possível saber qual será a verdadeira posição a ser assumida por Obama. Certamente, não será a mesma adotada por seu antecessor. O que se espera é que o novo governo dos EUA use a inteligência, não aprofunde o ódio e tome medidas efetivas para a paz mundial. Não há qualquer certeza que a atual trégua tenha vindo para ficar. Tudo dependerá de como a situação política internacional e local irá evoluir. Neste sentido, Obama no poder terá um papel crucial nos passos que serão dados na direção da paz ou da continuação do massacre.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Réquiem por Israel? A criação de Israel é um ato de ocupação.



Uma leitura atenta dos textos dos sionistas fundadores do Estado de Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente ainda hoje finge desconhecer: a criação de Israel é um ato de ocupação e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha a ser desarmada. O artigo é de Boaventura Sousa Santos.

Boaventura de Sousa Santos


Está ocorrendo na Palestina o mais recente e brutal massacre do povo palestino cometido pelas forças ocupantes de Israel com a cumplicidade do Ocidente, uma cumplicidade feita de silêncio, hipocrisia e manipulação grotesca da informação, que trivializa o horror e o sofrimento injusto e transforma ocupantes em ocupados, agressores em vítimas, provocação ofensiva em legítima defesa.

As razões próximas, apesar de omitidas pelos meios de comunicação ocidentais, são conhecidas. Em novembro passado a aviação israelense bombardeou a faixa de Gaza em violação das tréguas, o Hamas propôs a renegociação do controle dos acessos à faixa de Gaza, Israel recusou e tudo começou. Esta provocação premeditada teve objetivos de política interna e internacional bem definidos: recuperação eleitoral de uma coligação em risco; exército sedento de vingar a derrota do Líbano; vazio da transição política nos EUA e a necessidade de criar um facto consumado antes da investidura do presidente Obama. Tudo isto é óbvio mas não nos permite entender o ininteligível: o sacrifício de uma população civil inocente mediante a prática de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade cometidos com a certeza da impunidade.

É preciso recuar no tempo. Não ao tempo longínquo da bíblia hebraica, o mais violento e sangrento livro alguma vez escrito. Basta recuar sessenta anos, à data da criação do Estado de Israel. Nas condições em que foi criado e depois apoiado pelo Ocidente, o Estado de Israel é o mais recente (certamente não o último) ato colonial da Europa. De um dia para o outro, 750.000 palestinos foram expulsos das suas terras ancestrais e condenados a uma ocupação sangrenta e racista para que a Europa expiasse o crime hediondo do Holocausto contra o povo judeu.


Uma leitura atenta dos textos dos sionistas fundadores do Estado de Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente ainda hoje finge desconhecer: a criação de Israel é um ato de ocupação e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha a ser desarmada (daí, que a seguir a cada tratado de paz se tenha de seguir um ato de violação que a desminta); para consolidar a ocupação, o povo judeu tem de se afirmar como um povo superior condenado a viver rodeado de povos racialmente inferiores, mesmo que isso contradiga a evidência de que árabes e judeus são todos povos semitas; com raças inferiores só é possível um relacionamento de tipo colonial, pelo que a solução dos dois Estados é impensável; em vez dela, a solução é a do apartheid, tanto na região, como no interior de Israel (daí, os colonatos e o tratamento dos árabes israelenses como cidadãos de segunda classe); a guerra é infinita e a solução final poderá implicar o extermínio de uma das partes, certamente a mais fraca.


O que se passou nos últimos sessenta anos confirma tudo isto mas vai muito para além disto. Nas duas últimas décadas, Israel procurou, com êxito, sequestrar a política norte-americana na região, servindo-se para isso do lobby judaico, dos neoconservadores e, como sempre, da corrupção dos líderes políticos árabes, reféns do petróleo e da ajuda financeira norte-americana. A guerra do Iraque foi uma antecipação de Gaza: a lógica é a mesma, as operações são as mesmas, a desproporção da violência é a mesma; até as imagens são as mesmas, sendo também de prever que o resultado seja o mesmo. E não se foi mais longe porque Bush, entretanto, se debilitou. Não pediram os israelenses autorização aos EUA para bombardear as instalações nucleares do Irã?

É hoje evidente que o verdadeiro objetivo de Israel, a solução final, é o extermínio do povo palestino. Terão os israelenses a noção de que a shoah com que o seu vice-ministro da defesa ameaçou os palestinianos poderá vir a vitimá-los também? Não temerão que muitos dos que defenderam a criação do Estado de Israel hoje se perguntem se nestas condições - e repito, nestas condições - o Estado de Israel tem direito de existir?



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Repetição de um Erro - Israel Não Aprende! - A história tem mostrado que o colonialismo só sobreviveu intacto, quando a maioria dos nativos usurpados foram exterminados.


A Repetição de um Erro - Israel Não Aprende!

Publicado originalmente na Al-Jazeera em 31/12/2008
Nir Rosen - Al-Jazeera - Agência Carta Maior - 01/01/2009
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15458


A história tem mostrado que o colonialismo só sobreviveu intacto, quando a maioria dos nativos usurpados foram exterminados. Algumas vezes, como na Argélia ocupada, os colonizadores tiveram de fugir. A prosseguir a violência de Israel sem que nada a detenha, os palestinos não aceitarão nem a solução de um Estado igualitário, e os colonialistas de Israel serão forçados a sair.



Quando George Bush, presidente dos EUA, pisou pela primeira vez na Casa Branca como comandante-em-chefe, em 2001, os palestinos estavam sendo mortos na intifada de al-Aqsa. Oito anos depois, quando Bush prepara-se para sair de lá, Israel realiza um dos maiores massacres dos seus 60 anos como potência ocupante, na Palestina. Antes, como hoje, os EUA decididamente apóiam a ofensiva israelense, e dizem, até, que seria defensiva.

Recentemente, um general israelense ameaçou usar força militar para obrigar Gaza a "retroceder décadas", a mesma linguagem usada antes de Israel invadir o Líbano, em 2006. Mas, apesar de Israel ter devastado o Líbano, o Hizbóllah emergiu vitorioso, e o movimento social e de resistência dos xiitas emergiu como herói do mundo árabe. Hoje, Israel está próximo de cometer erro idêntico, na luta contra o Hamás.

Israel, para assinar uma trégua com o Hamás, exige que os palestinos aceitem, mudos e imóveis, qualquer tipo de bloqueio ou sítio. Israel negou-lhes até os meios mais básicos para a sobrevivência e, isso, sem falar que sempre lhes negou qualquer chance de construírem uma sociedade funcional. E a cada movimento de resistência, Israel tentou esmagá-los.

Já no Líbano, há anos, Israel deveria ter aprendido, de uma vez por todas, que a força militar não basta, para destruir a resistência dos palestinos.

O papel da mídia

O exército israelense chacina, depois de ter aprisionado, a população de 1,5 milhão de seres humanos que vive em Gaza, e o Ocidente assiste ao sacrifício dos palestinos. A mídia opera para explicar, quando não para justificar, a carnificina em cores.

Até no mundo árabe houve noticiários e comentaristas para informar que o poder de fogo da resistência palestina - praticamente rojões, todos de fabricação caseira - seria grave ameaça à portentosa máquina militar que Israel é, mais do que comanda ou possui.

Pois nada disso é surpresa; os israelenses montaram uma campanha global de propaganda para obter apoio para o assalto, e até conseguiram, sim, a colaboração de alguns Estados árabes.

Um jornal norte-americano convidou-me certa vez para uma discussão sobre se haveria caso ou circunstância em que se justificasse o terrorismo ou o ataque militar a populações civis. Respondi que nenhum jornal norte-americano deveria perguntar a mim sobre justificativas para ataques a civis desarmados. Que essa pergunta só poderia ser respondida por, e portanto só poderia ser feita a, civis que algum dia tivessem sofrido ataque militar: pelos índios nos EUA, há 150 anos; pelos judeus, na Alemanha Nazista; pelos palestinos, hoje.

Terrorismo é termo que se usa hoje, doentiamente, para descrever o que 'outros' fazem, não para descrever o que 'nós' fazemos. Nações poderosas, como Israel, os EUA, a Rússia ou a China, sempre descrevem como "terrorismo" a luta de resistência que seja feita, contra as nações poderosas, pelas suas vítimas.

Estranhamente, não dizem que seria ato de terrorismo a destruição da Chechênia, o massacre lento do que resta dos palestinos, a repressão aos tibetanos e a ocupação, pelos EUA, do Iraque e do Afeganistão.

As mesmas nações, porque são potências militares, definem o que seja legal e permitido, no que tange a matar em grande escala. As mesmas nações formulam o conceito de terrorismo, criam leis terroristas, e fazem parecer que alguma corte neutra houvesse definido alguma espécie de lei do opressor, do ocupante, do invasor, do assassino.

Assim se torna ilegal, por definição, que o oprimido, o ocupado, o invadido, o mais fraco resista.

O uso excessivo do jargão judiciário e legalista de fato mina os fundamentos do que é legítima e verdadeiramente legal e diminui a credibilidade das instituições internacionais como a ONU. A lei passa a ser inimiga dos que resistam.

Já é visível que os poderosos - os que escrevem as leis - insistem na legalidade apenas para preservar relações de poder que lhes sirvam ou para criar ou para manter relações de ocupação e de colonialismo.

Resistência desesperada

Os poderes coloniais sempre usam estrategicamente as populações civis. Sempre cabe a civis ocupar terras e deslocar as populações nativas, sejam as populações indígenas nos EUA, sejam palestinos no que hoje são Israel e os Territórios Ocupados.

Assim surgem os grupos civis armados, em movimento desesperado de resistência, porque a resistência local grupal passa a ser o único modo de enfrentar a ameaça sempre iminente da erradicação.

Os palestinos não atacam civis israelenses porque esperem que aquela violência derrote ou destrua Israel. Eles recorreram à resistência armada quando perceberam que há uma dinâmica poderosíssima, quase irreversível, que os quer extrair da própria terra e da própria identidade, apoiada num poder que parece ser incomensuravelmente maior do que qualquer resistência. Então, sim, recorreram às armas, como qualquer um recorreriam a qualquer meio que encontrasse.

OLP, depois Hamás

Em 1948, quando Israel implantou-se como um novo Estado, houve um processo de 'limpeza étnica' de 750 mil palestinos, deliberadamente arrancados de suas casas; centenas de vilas foram destruídas até serem reduzidas a pó.

A terra que ali havia foi entregue a colonos judeus que até hoje negam que ali existissem palestinos e fazem guerra, há 60 anos, contra as populações nativas e contra todos os movimentos de libertação nacional que os palestinos organizaram por todo o mundo.

Israel, seus aliados no Ocidente e vários países árabes na região conseguiram corromper as lideranças da OLP, com promessas de poder, ao preço da liberdade da Palestina. Assim, Israel neutralizou o poder legítimo da OLP de Arafat e surgiu a OLP que passou a colaborar com a Israel ocupante. Dos restos da OLP de Arafat nasceu então o Hamás. Imediatamente, Israel mudou seu foco: o alvo, então, passou a ser o Hamás.

E o Hamás passou a ser obsessão, para Israel quando, há três anos, venceu as eleições legislativas.

Ao apoiar o boicote e o sítio de Gaza, para atacar o Hamás, o Ocidente, de fato, declara os palestinos 'não preparados' para a democracia. Todas as ditaduras do mundo, até hoje, fizeram, sempre, igual 'avaliação'.

Isolamento e radicalização

Ao declarar aos palestinos que não são livres para votar e escolher seus líderes, líderes nos quais confiam, e têm de curvar-se e aceitar líderes que lhes sejam impostos, a comunidade internacional aprofunda o isolamento - e portanto os leva a radicalização cada vez maior dos palestinos.

Essa radicalização já é hoje maior do que jamais foi, porque Israel continua a bombardear a já precaríssima estrutura de sobrevivência na Palestina ocupada, sob o pretexto falso, como se vê, de estar atacando estruturas do Hamás.

É mentira sobre mentira; as forças de Israel bombardearam instalações da Polícia palestina. Já assassinaram, dentre outros, Tawfiq Jaber, Chefe da Polícia, ex-oficial da OLP de Arafat, que permaneceu no cargo depois que o Hamás foi eleito.

Com o fim dos últimos vestígios de ordem e segurança debilitados ainda mais por sucessivos ataques militares israelenses, haverá caos, em Gaza. Com o Hamás muito enfraquecido, não haverá grupo moderador.

Então, assumirá o poder, não alguma Fatah debilitada, corrompida e impopular, mas um grupo extremista, persuadido pela violência do bloqueio e pela brutalidade dos ataques israelenses, de que nenhuma negociação se pode esperar, que não se pode confiar, porque todo e qualquer acordo sempre será rompido por Israel.

Políticas fracassadas

Nos últimos 60 anos, os políticos israelenses têm incansavelmente repetido que "a violência é a única linguagem que os árabes entendem". Mas Israel, muito mais que os árabes, tem feito da violência, rotina. Na Cúpula Árabe em Beirute, em 2002, a Liga Árabe, coletivamente, ofereceu meios a Israel para pôr fim ao banho de sangue e evoluiu para um acordo de paz regional amplo. Em resposta, Israel invadiu Jenin e matou centenas.

Mês passado, a Fatah lançou campanha, pelos jornais, para reviver a Iniciativa de Paz de 2002. Israel, outra vez, respondeu com brutalidade.

Uma Israel sionista já não é projeto viável. E as colônias armadas, a expropriação violenta de terras e os muros de separação já tornaram impossível qualquer Solução dos Dois Estados.

Só pode haver um Estado, na Palestina histórica. Mais dia, menos dia, os israelenses terão de enfrentar a questão que decidirá seu destino: como construir uma transição pacífica e construir, afinal, uma sociedade de palestinos e israelenses, sociedade igualitária, na qual os palestinos tenham os mesmos direitos que os israelenses.

Mais alguns anos de violência desmedida, nem essa alternativa será possível.

A história tem mostrado que o colonialismo só sobreviveu intacto, quando a maioria dos nativos usurpados foram exterminados. Algumas vezes, como na Argélia ocupada, os colonizadores tiveram de fugir. A prosseguir a violência de Israel sem que nada a detenha, os palestinos não aceitarão nem a solução de um Estado igualitário, e os colonialistas de Israel serão forçados a sair.

Restaurar a Palestina

Apesar de nada fazer na direção de qualquer processo de paz para o Oriente Médio, a Casa Branca, nos anos recentes tem-se mostrado incapaz de resolver o nó da ocupação da Palestina por Israel, principal causa que põe em armas todos os militantes anti-americanos 
no mundo árabe e fora do mundo árabe.
O anti-americanismo é o denominador comum que modula todos os discursos populistas, no Oriente Médio. Invadir o Iraque ou oferecer vantagens a Estados aliados, não ajudará a resolver o problema em que os EUA converteram em problema quase insolúvel para todo o mundo.

Nas minhas viagens e pesquisas, tenho falado com jihadistas no Iraque, no Líbano, no Afeganistão, na Somália e em outros lugares: todos falam da luta dos palestinos como sua de suas principais motivações.

O apoio a Israel custará muito caro aos EUA. Em breve, as ditaduras árabes, que os EUA consideram moderadas e que contribuem para manter a hegemonia dos EUA na região perceberão que, elas mesmas, estão em posição insustentável.

Perda de prestígio

Já se vêem aparecer novas tensões na região. Damasco retirou-se das conversações tripartites com Telavive. Muitos árabes já temem, não só Israel ou os EUA ou ambos, mas, mais, a própria instabilidade interna de seus governos e regimes, enfraquecidos por décadas de colaboração com Washington.

Também em Israel, a opinião pública começa a apresentar tendências novas. Embora 81% dos israelenses estejam hoje apoiando a guerra, pesquisa recente mostrava que apenas 39% dos israelenses acreditam que o atual governo, com guerra ou sem, conseguirá enfraquecer o Hamás ou reduzir a violência.

Em editorial, há poucos dias, o jornalista Gideon Levy escreveu, no Haaretz, de Telaviv, editorial intitulado "The neighborhood bully strikes again" - O delinquente do quarteirão ataca novamente" (28/12/2008).

Barack Obama, presidente eleito dos EUA permanece mudo, enquanto Israel assassina palestinos. A mudez é manifestação de cumplicidade.

Nir Rosen é jornalista, professor do New York University Center on Law and Security, autor de "The Triumph of the Martyrs: A Reporter's Journey in to Occupied Iraq" (escrevendo de Beirute).
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Nir Rosen



quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Batalha de Gaza - Trunfos do Jornalismo Humanista





Como cobrir guerras sem provocar outras? Como descrever os resultados do ódio sem aumentá-lo? O grande desafio do jornalista em zonas de conflito é pormenorizar o horror para acabar com o horror. Tarefa sobre-humana: impossível ignorar sentimentos, preferências, preconceitos ou fingir objetividade diante da dor.

Jornalistas não são máquinas de escrever. As guerras contemporâneas são conjunto de batalhas, geralmente curtas, grande é a rotatividade dos enviados às frentes de combate. Todos mais ou menos novatos, veteranos tentariam ser mais frios, o público quer sentir as emoções do terreno.

O fator de equilíbrio é o veículo. Cabe ao jornal, revista, rádiojornal, telejornal ou portal de internet abrigar e comparar divergências, somar pontos de vista, exibir o amplo espectro da controvérsia. Juntar interpretações - geralmente encontradas a boa distância das ocorrências - com as vivências in loco. Veicular opiniões e colocá-las a serviço da racionalidade.

Se as partes não oferecerem um mínimo de credibilidade, o conjunto ficará claudicante. O jornalismo é um processo orgânico e não uma colcha de retalhos, desigual.




Sessenta anos

As edições dos jornalões de referência nacional da segunda-feira (05/01/2009) ofereceram um mostruário deste jornalismo múltiplo, pós-individual. Com o feriadão do fim de ano e a invasão da Faixa de Gaza pelo exército israelense, foi o primeiro dia da guerra plena.

Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e Globo buscaram o equilíbrio - mostrar os dois lados felizmente virou rotina. Despachar repórteres para a região do conflito também (o Globo serviu-se da correspondente).

A Folha saiu-se melhor, a partir da primeira página. Arrasadora, aquela imensa imagem negra, enlutada, e, no canto, as lágrimas correndo no rosto da menina palestina. A longa chamada dividida em tópicos oferece ao leitor (provavelmente recém-chegado das férias/festas) uma visão ampla desta nova batalha da Guerra da Palestina, a mais longa dos séculos 20 e 21 (desde 1948, 60 anos).

Os três diários oferecem praticamente o mesmo espaço (quatro páginas), mas a Folha acrescentou a primeira página quase inteira e a oportuníssima análise de Igor Gielow, de Brasília, na Página 2 mostrando o nonsense da nossa diplomacia.

Além da farta produção dos enviados e correspondentes, os três selecionaram excelentes textos de grandes jornais internacionais (a Folha serviu-se do Financial Times, o Globo usou Washington Post e Independent, o Estado preferiu as agências de notícias).




Partido da racionalidade

A diferença, a grande diferença a favor da Folha foram as entrevistas da última página do primeiro caderno (A-10) com dois lúcidos especialistas: o palestino Bashir Bashir, que leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém, e o israelense Eyal Zisser, da Universidade de Tel-Aviv.

Aqui fica visível o que acima foi designado como "fator de equilíbrio", o trabalho de edição, a orquestração. De nada adiantariam entrevistas com delirantes adversários. O leitor ficaria mais confuso, mais vulnerável às simplificações e, sobretudo, ao ódio.

A maestria - a função social do jornalismo - exibiu-se na escolha de dois expoentes da cultura regional. Teoricamente em guerra, divergentes, o palestino e o israelense mostraram como é possível produzir aproximações. Mostraram também o quilate das respectivas elites, o potencial de bom senso e sofisticação cultural ao lado daquele enorme barril de pólvora.

Cobrir uma guerra mostrando como a guerra é insensata, absurda; cobrir uma guerra tomando o partido da racionalidade é um dos trunfos - triunfo - do jornalismo verdadeiramente humanista, tão fácil de entender, tão difícil de praticar.



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Alberto Dines





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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Gaza: Perguntas e Respostas


Gaza: Perguntas e Respostas

Emir Sader - Agência Carta Maior - 06/01/2009
http://www.cartamaior.com.br/


1) A questão de fundo dos conflitos na Palestina é o veto dos EUA e a oposição militar de Israel contra a resolução da ONU do direito de existência de um Estado de Israel e de um Estado Palestino. O Estado israelense existe, porém os EUA - com seu veto no Conselho de Segurança - e Israel, com a ocupação dos territórios palestinos, impedem que a resolução da ONU seja posta em prática - única solução justa e com possibilidade de promover uma paz duradoura na região.

2) Nas eleições mais democráticas de toda a região - conforme atestado da própria Fundação Carter - o Hamas foi eleito. As potências ocidentais promoveram o boicote, junto com Israel, desconhecendo a vontade expressa dos palestinos. Essa é a raiz mais imediata dos conflitos atuais.

3) Se o Hamas é considerado uma organização terrorista e nunca invadiu territórios israelenses, como deve ser considerado o Exército de ocupação israelense?

4) A teoria das "guerras humanitárias" da Otan, formulada por Tony Blair, promoveu o bombardeio e a intervenção na Iugoslávia, acusada de promover uma limpeza étnica. Não se aplica a mesmíssima teoria a Israel?

5) O que se deve fazer para que Israel pare a "carnificina" - a expressão é do Lula - em Gaza?

6) A ruptura da trégua não foi feita pelo Hamas, mas por Israel, que em novembro matou a 6 dirigentes da organização.

7) O presidente da União Européia, presidente da República Checa, disse que "a ação de Israel é defensiva" (sic). Argumento similar utiliza a corrente revisionista da história alemã, que alega que os campos de concentração do nazismo foram uma ação preventiva (sic) em relação à repressão bolchevique na URSS.

8) A tese central do sionismo é a de que Israel é um povo escolhido, segundo sua interpretação dos textos religiosos. Ela vem de muito antes do nazismo. Daí que o holocausto sofrido na Alemanha não poderia ser comparado com nada. Isto é, o sofrimento alheio, inclusive o perpetrado por eles, nunca é igual ao deles. Têm em comum com os EUA a tese de que seria um poço predestinado para resgatar a humanidade da barbárie, impondo-lhe seu sistema político, fundado supostamente na liberdade.

9) Israel justifica o bombardeio indiscriminado de todos os lugares de Gaza, porque em qualquer lugar, segundo eles, - nas mesquitas, nas escolas, nos hospitais, etc. - poderiam estar escondidas bombas e militantes do Hamas. A Universidade atacada seria antro de professores e estudantes do Hamas. Atacam tudo com a mesma visão norte-americana no Vietnã: haveria que tirar a água (o povo) do peixe (os militantes). Assim buscaram destruir o Vietnã inteiro, com bombas napalm e bombas terrestres, que até hoje os vietnamitas ainda estão retirando.

10) Corre por ai um argumento envergonhado de defender a carnificina israelense, perguntando o que faria o Brasil se um país fronteiriço - alguns se atrevem a mencionar o Uruguai - ameaçasse a existência do Brasil, sugerindo que deveríamos fazer com nosso vizinho do sul o que Israel faz com os palestinos em Gaza: uma guerra de extermínio. Em primeiro lugar, o Brasil não ocupa nenhum outro país e se algum governo aventureiro tentasse fazê-lo, não teria nenhuma possibilidade de conseguir o consenso interno que Israel obtêm para fazer a guerra contra os palestinos, há forças democráticas internas que impediriam. Foi preciso uma feroz ditadura militar para poder mandar tropas para a República Dominicana, junto com as dos EUA, para afogar um movimento democrático naquele país. Em segundo lugar, o Uruguai, país de muito longa tradição democrática, nunca significaria riscos de extinção para o Brasil, nem nenhum outro vizinho. É um sofisma esse argumento, da mesma forma que o do Obama visitando Israel na campanha eleitoral, quando disse que se ameaçassem suas filhas dormindo na sua casa, se permitiria qualquer ato de agressão para defendê-las. Seu silêncio atual demonstra como as filhas de israelenses são privilegiadas em relação às dos palestinos, que ocupam diariamente a imprensa, feridas, aterrorizadas ou nas morgues, esperando lugar para serem enterradas. Quem hoje não se indigna diante do massacre israelense e se refugia no silencia ou em sofismas, perdeu a humanidade há muito tempo.

11) Pode-se fazer tudo com os mísseis, menos sentar em cima deles (para adaptar a fórmula clássica à época dos mísseis, antes eram baionetas). Isto é, uma vitória militar pode ser perdida politicamente por Israel. No Vietnã também a proporção era de uma vítima norte-americana por 10 ou 100 vietnamitas (lá também se matava indiscriminadamente e se dizia que eram guerrilheiros; todo morto virava guerrilheiro). Em algum momento se terá que estabelecer um novo acordo político e que acordo Israel acredita possível com o ódio que gera a carnificina que está produzindo e com o repúdio da opinião pública internacional?

12) Nenhum povo do mundo que oprime um outro, poderá viver em paz. Israel nunca terá paz, antes dos palestinos terem o mesmo direito deles - possuir um Estado soberano.

13) Mais do que nunca os judeus de esquerda, progressistas ou simplesmente pacificas, os que não estão de acordo com o massacre de Israel contra o povo de Gaza, tem que se manifestar, para que não se generalize a justa condenação de Israel e do sionismo, com a totalidade dos judeus.

14) Eu não tenho raízes islâmicas, apesar do meu nome. Sou filho de libaneses maronitas/católicos. Minha identificação com os palestinos hoje é a mesma que tive - como tantos - com os vietnamitas. Hoje, SOMOS TODOS PALESTINOS.


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Emir Sader




Fim da era Bush e eleição em Israel: Uma das faces obscenas do massacre

Fim da era Bush e eleição em Israel: Uma das faces obscenas do massacre
Michael Warschawski - Agência Carta Maior - 31/12/2008
Tradução de Luís Leiria - Esquerda.Net
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15454


O ataque a Gaza é uma tentativa de última hora de mudar as relações de forças no Médio Oriente, antes do fim da era Bush, nos EUA. E tem uma dimensão obscena: as centenas de vítimas dos bombardeios são vítimas colaterais da campanha eleitoral em Israel.Para aumentar o seu apoio popular antes das eleições, todos os líderes israelenses estão competindo para ver quem é o mais duro e quem está disposto a matar mais. A análise é de Michael Warschawski.

"A morte de uma única vítima israelense justifica o assassinato de centenas de palestinos. Uma vida israelense vale uma centena de vidas palestinas. É isto que o Estado de Israel e os meios de comunicação mundiais mais ou menos descuidadamente repetem, com questionamentos marginais. E esta alegação, que acompanhou e justificou a mais longa ocupação de territórios estrangeiros da história do século XX, é visceralmente racista. Que o povo judeu aceite isto, que o mundo concorde, que os palestinos se submetam - esta é uma história de piadas irônicas. Ninguém acha graça..." John Berger.

Enquanto o mundo inteiro está em choque diante das terríveis imagens emitidas de Gaza, a opinião pública israelense apóia maciçamente a sangrenta ofensiva de Barak-Olmert. Isto inclui o Meretz, a oposição de esquerda parlamentar. Apesar de ter manifestado preocupação pelas mortes de civis, o líder do Meretz, Haim Oron, numa entrevista à televisão israelense, aderiu aos argumentos da propaganda oficial, responsabilizando o Hamas pelo banho de sangue. Um discurso mistificador como este está sendo copiado pela maioria dos líderes do mundo ocidental, com o Ministro dos Negócios Estrangeiros de França superando até a Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. Vamos colocar os fatos em sua devida ordem:

Gaza está sendo alvejada pelo exército israelense desde a vitória do Hamas, e o cerco imposto sobre mais de 1,5 milhão de civis - por Israel, mas também pela chamada comunidade internacional - é em si um ato de violência e um crime de guerra;

O ataque israelense é uma agressão planejada: de acordo com as notícias vindas de Israel, Ehud Barak planejou o ataque a Gaza já em agosto;

Os foguetes lançados sobre cidades de Israel foram uma retaliação a agressões militares israelitas anteriores, e não foram lançados pelo Hamas, mas sim pela pequena organização Jihad Islâmica;

O ataque a Gaza é parte integral da guerra santa neo-conservadora contra o mundo islâmico, e a administração neo-conservadora cessante dos EUA, assim como o Egito e outros regimes reacionários árabes, instaram as autoridades israelenses a desencadear a ofensiva antes de Obama entrar na Casa Branca;

A intenção declarada de Barack Obama de abrir conversações com a República Islâmica do Irã é uma das principais preocupações das administrações cessantes em Tel Aviv e Washington, e a ofensiva contra Gaza é uma tentativa de provocar uma reação iraniana que permita a retaliação israelense e dos EUA. Nos últimos dias, o vice-ministro da Defesa israelense, Ephraim Sneh, bem conhecido pela sua obsessão anti-iraniana, vinculou sistematicamente os foguetes do Hamas (sic) ao Irã, sem, evidentemente, apresentar quaisquer provas.

Esta estratégia geral, baseada na mistificação do "choque de civilizações" e na guerra global contra o Islã, é partilhada por todos os partidos políticos sionistas de Israel e explica o apoio do Meretz à atual agressão.

Apesar de não ser de esperar uma mudança rápida da política norte-americana no Ocidente asiático, os líderes israelitas e os seus patrocinadores neo-cons em Washington estão preocupados pela mudança na administração norte-americana, e temem que uma nova estratégia possa quebrar a guerra global "preventiva". O ataque a Gaza é uma tentativa de última hora de mudar as relações de forças no Médio Oriente, antes do fim da era neo-conservadora.

E, antes de concluir, não esqueçamos a dimensão obscena: as centenas de vítimas dos bombardeios sobre Gaza são vítimas colaterais da campanha eleitoral israelense. Para aumentar o seu apoio popular antes das eleições, todos os líderes israelenses estão competindo para ver quem é o mais duro e quem está disposto a matar mais. Ehud Barak, contudo, tem uma memória muito curta, e Shimon Peres pode recordar-lhe que este cálculo cínico não é necessariamente o melhor: o massacre de Qana, que, supostamente, deu a vitória a Shimon Peres, teve como consequência que centenas de milhares de cidadãos palestinos virassem as costas ao Partido Trabalhista.

Apesar da sua brutalidade, contudo, Ehud Barak permanece um dos mais populares líderes na arena israelense, e os milhares de manifestantes que saíram às ruas ontem, quase sem convocação, protestando contra o massacre, podem indicar que todos os que estão por trás dele, incluindo o Meretz, não vão receber os seus votos. É previsível que o repúdio internacional e o relativamente amplo sentimento anti-guerra entre os eleitores force o Meretz, uma vez mais, a mudar de posição. Deviam, porém, lembrar-se da antiga verdade que os eleitores preferem sempre o original: quando o Meretz sanciona a estratégia de guerra e as mentiras de Netanyahu, os eleitores vão preferir votar em Netanyahu em vez de na sua pálida e sensaborona cópia.

Michael Warschawski, Centro de Informação Alternativa - Ativista de esquerda israelense, diretor do Centro de Informação Alternativa de Jerusalém.



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Michael Warschawski


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A Causa Palestina é Nossa


Ou assumimos a causa palestina como nossa ou assumimos o papel de integrantes de uma força de ocupação que nega nossos melhores discursos. Não há meio-termo.

Gilson Caroni Filho

O que vinha sendo planejado há meses, como estratégia eleitoral do primeiro-ministro Ehud Olmert, virou, com respaldo da mídia ocidental e seus "especialistas em Oriente Médio", uma compreensível reação aos foguetes lançados por militantes do Hamas contra território israelense. Trata-se de pura falácia, propaganda ideológica barata que trata uma ação de extermínio como se fosse o confronto de forças simétricas.

A ofensiva militar ao território de Gaza obedeceu a um cálculo frio de custos e benefícios. Os mais de 500 mortos até agora, sendo 87 crianças, tiveram seus destinos traçados em outubro de 2008, quando o partido governista, submeteu à apreciação do Parlamento sua dissolução e a proposta de eleições antecipadas.

Além de uma disputa parlamentar acirrada, o ataque à Faixa de Gaza é um recado ao futuro governo estadunidense. Para as lideranças israelenses não há como sobreviver sem um projeto expansionista. A sorte dos dois é indissociável da manutenção da barbárie no Oriente Médio. Sionismo e imperialismo são as duas faces de uma mesma moeda. Obama deve assimilar isso como ensinamento da Torá. Hillary lhe pode servir como excelente guia.

A hegemonia política do fundamentalismo sionista é responsável pelo emprego de métodos de guerra que são comparáveis aos utilizados por outras potências coloniais, ao longo da história, contra a população civil que resistiu à opressão. Transformar o terrorismo de Estado em política aceitável tem sido a tarefa do jornalismo ocidental. Um trabalho tão recorrente quanto a punição coletiva de um povo se mostra aceitável para as "boas consciências" ocidentais.

Mais uma vez o governo israelense, com total apoio dos Estados Unidos, pratica uma aventura bárbara e criminosa, ditada por interesses e conveniências estratégicas. Conta para isso com a cumplicidade covarde das ditaduras e monarquias árabes. As demais potências, como já destacou José Arbex Jr, em artigo para Caros Amigos, "mesmo tendo seus interesses contrariados pela política expansionista da aliança Washington/ Tel Aviv, não têm vontade política nem se sentem com força para impor qualquer limite legal".

Como já tivemos oportunidade de escrever aqui mesmo ("O Holocausto Palestino" - 08/02/2008) desde o massacre no Sul do Líbano, em 82, passando pelo sufocamento de duas intifadas, não é o terrorismo de fanáticos que Israel persegue. Na região conflagrada, o movimento palestino era o mais progressista projeto de resistência, o mais prenhe de valores da modernidade. O mais rico em termos culturais. As pedras dos jovens árabes defenderam da insanidade uma herança cara ao Ocidente. Querer reduzi-los ao Hamas e outros grupos de motivação religiosa é, com apoio logístico da mídia internacional, distorcer a realidade para ocultar contradições mais profundas. Mentir com insistência até que a inverdade assuma ares de realidade inconteste".

Para o historiador Oswaldo Coggiolla "na Faixa de Gaza são visíveis as razões para a resistência dos palestinos. Com uma população de mais de 1 milhão de habitantes, a Faixa de Gaza, chamada de "Soweto de Israel", não é um estado e não foi anexada a Israel. As forças de defesa de Israel controlam toda a fronteira. Se os moradores de Gaza quiserem sair dessa área, precisam obter uma permissão dos israelenses. Muitos palestinos - nascidos a partir de 1967 - nunca saíram da faixa, uma tripa de terra situada entre o deserto de Neguev e o mar Mediterrâneo, que mede 46 km de comprimento e 10 km de largura, aproximadamente".

Em um contexto dessa natureza qual a única forma possível de ação a um povo destituído de qualquer direito? Sem qualquer possibilidade de ser reconduzido a uma unidade territorial que nem de longe lembre a idéia de Estado?

Quando o presidente Shimon Peres rejeita a possibilidade de trégua e diz que o Hamas precisa de "uma lição real", reafirmando que não tem qualquer interesse em reocupar a Faixa de Gaza, vem à memória a famosa fala de Itzak Rabin na Guerra dos Seis Dias, como comandante do Exército: Não temos o objetivo de anexar qualquer terreno palestino, sírio ou egípcio. É o caso de se perguntar qual a lição real a ser extraída? A quem interessava que o conflito israelense-palestino, que tinha um caráter nacional, se transformasse em conflito religioso que atinge todo o mundo mulçumano?

Oslo e Mapa da Estrada foram elaborações frustradas pelo extremismo sionista. Em novembro do ano passado, durante a Conferência de Annapolis (EUA), o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, concordaram em realizar um esforço negociador para alcançar um acordo até o final de 2008. Em janeiro de 2009, agentes da ONU informam que a ofensiva terrestre israelense piorou a crise humanitária em Gaza.

Ou assumimos a causa palestina como nossa ou assumimos o papel de integrantes de uma força de ocupação que nega nossos melhores discursos. Não há meio-termo.




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