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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Acharam o Ponto G



Acharam o Ponto G
Letícia Sorg - Revista Época nº 510 de 25/02/2008


Pesquisadores italianos afirmam ter achado a chave do orgasmo feminino. Mas a discussão não acabou.


O ginecologista alemão Ernst Gräfenberg afirmou na década de 50 que uma pequena área da anatomia feminina, quando estimulada, levava as mulheres a orgasmos mais intensos que aqueles obtidos com a estimulação do clitóris. De lá para cá, cientistas do mundo inteiro procuram o elusivo "ponto G", batizado com a inicial de seu "descobridor". Uma pesquisa da Universidade de Áquila, na Itália, publicada no Journal of Sexual Medicine, é a mais recente tentativa da ciência de comprovar a existência do ponto G. Segundo um dos autores, o pesquisador Emmanuele Jannini, algumas mulheres têm um ponto G e outras não. "Será possível determinar, de uma maneira rápida, simples e barata, numa ultra-sonografia, se uma mulher tem ou não um ponto G", afirma Jannini.

O ponto G, afirmou Gräfenberg, se situa em um tecido entre a vagina e a uretra, podendo ser estimulado através da parede vaginal interna. Para encontrá-lo, por mais estranho que pareça, Jannini começou examinando cadáveres. O cientista encontrou diferenças nas quantidades de determinadas substâncias relacionadas ao aumento da atividade sexual. Uma delas é o PDES, enzima responsável pelo processamento do óxido nítrico, substância que ajuda a ereção masculina - os remédios para impotência inibem a ação do PDES para melhorar o fluxo de sangue no pênis.

O passo seguinte de Jannini foi estudar mulheres vivas, para sondar se a presença desses marcadores estava associada a relatos de orgasmos vaginais. Para tentar chegar a essa resposta, Jannini fez ultra-sonografias para estudar o tecido entre a vagina e a uretra. Participaram do estudo nove mulheres que afirmaram ter orgasmos vaginais e 11 que disseram não tê-los. Os pesquisadores concluíram que o tecido daquelas que sentiam o orgasmo vaginal era mais espesso. "A conclusão provável é que há mulheres que têm e outras que não têm o ponto G", afirmou a ÉPOCA Jannini. "Não tê-lo não impede a mulher de ter orgasmos. É uma diferença anatômica como ter olhos castanhos ou verdes, e não um problema de saúde".

Para outra pesquisadora, Beverly Whipple, do Departamento de Enfermagem da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, nos Estados Unidos, todas as mulheres têm um ponto G. As diferenças anatômicas encontradas pelos italianos estariam relacionadas apenas a quanto elas exercitam a estrutura vaginal - o que poderia explicar seu espessamento.

Para o ginecologista Fábio Lopes Teixeira Filho, da Universidade Federal de São Paulo, o estudo italiano está longe de colocar um ponto final na discussão. "O grupo de mulheres estudado foi muito pequeno", afirma. O professor também sugere que o estudo seja repetido usando exames mais sofisticados e exatos, como a ressonância magnética e a tomografia. "Parâmetros anatômicos não são o mais importante para determinar a ocorrência do orgasmo vaginal", diz Teixeira Filho. Variações de tamanho do clitóris, por exemplo, não parecem ter influência na ocorrência ou na intensidade do orgasmo. "Fatores como o estresse e o relacionamento do casal costumam ser mais importantes".



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Entrevista com o pesquisador Emmanuelle Jannini
Letícia Sorg - Revista Época nº 510 de 25/02/2008
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EDG81943-5856,00.html


Revista Época - Como o senhor e o grupo de pesquisa chegaram à conclusão de que o ponto G existe?

Emmanuelle Jannini
- Usamos técnicas fisiológicas para encontrar o ponto G. Significa que percebemos diferenças anatômicas entre as regiões do períneo e o clitóris em autópsias que realizamos. Minhas descobertas foram as diferenças entre as mulheres. Algumas possuem um profundo corpo clitórico dentro da vagina. Outras não possuem qualquer vestígio desta "corpora cavernosa". Outras possuem ainda a chamada próstata feminina. Todos esses elementos compõem o ponto G. Meu primeiro interesse foi pré-clinico e celular. Utilizamos uma análise bioquímica para localizar o ponto G - uma espécie de marcador clínico - chamado PDES. Mas não podemos perguntar a um cadáver sobre sua vida sexual. Por isso, fizemos novos estudos para relacionar essas descobertas fisiológicas com a performance sexual e a possibilidade de atingir o orgasmo vaginal, comprovando as diferenças clínicas entre as mulheres.



RE
- Qual a verdadeira origem do ponto G? Quão longe estamos de entender a anatomia feminina? Alguns dizem que foi um ginecologista alemão que o descobriu...

Jannini
- Ele demonstrou que a excitabilidade deste ponto, que estimular essa região é um modo de atingir o orgasmo vaginal. Mas agora a ciência pode comprovar, através de ressonâncias, ecografias - ferramentas simples - que esta parte do corpo é diferente de mulher para mulher. A ecografia é capaz de ver as partes que compõem a vagina por dentro, seus tamanhos.



RE
- Qual a importância de estudar este ponto específico da anatomia feminina?

Jannini
- Percebi que é importante porque muitas mulheres são chamadas de frias. É porque o órgão comumente utilizado para o prazer é o clitóris. Mas algumas mulheres atingem o orgasmo sem estimular o clitóris. O ponto G não é necessário para alcançar o orgasmo, mas pode ser uma outra porta para a casa do prazer. Mas se você já tem uma porta, para que outra? E por que não? Porém, não tê-la não é doença. Muitas garotas pensam que há algo errado com elas por não terem. Ter o ponto G é como a cor dos olhos. Alguns têm verdes, outros castanhos. Nenhum dos dois é doença.



RE
- Mas é importante às mulheres ter outras opções?

Jannini
- Sim, mas é importante estabelecer que o órgão é um só. O ponto G é uma maneira interna de atingir o orgasmo. Não gosto de ver a sexologia ligada a opiniões. Quero ver a sexologia ligada a fatos, evidências científicas. Espero que minhas pesquisas possam ser úteis para entender a fisiologia humana, e espero que agora, antes de falar da sexualidade feminina, as pessoas sintam a necessidade de estar um pouco mais ligadas aos fatos científicos.



RE
- Mas o senhor percebeu primeiro uma diferença bioquímica, depois buscou as diferenças anatômicas em suas pesquisas?

Jannini
- Sim. As diferenças bioquímicas correspondem perfeitamente às diferenças anatômicas. Usei uma ferramenta completamente diferente. A primeira foi bioquímica, uma espécie de foto microscópica. Agora tirei uma macroscópica.



RE
- Uma outra pesquisadora disse que todas as mulheres têm o ponto G e que a diferença está em quanto elas exercitam a região. O que o senhor acha dessa crítica?

Jannini
- Creio que se uma mulher tem o ponto G, ela tem certeza que todas têm. Se uma garota não alcança o orgasmo vaginal, ela está certa de que nenhuma é capaz de alcançar. É comum usar a si mesmo como um espelho da sexualidade humana, de toda a sexualidade humana. Isto é errado. Existem muitas diferenças anatômicas, as mulheres são diferentes umas das outras. É um erro comum. Em fotos de vaginas de cadáveres posso mostrar que algumas mulheres são completamente desprovidas de uma estrutura semelhante ao do ponto G. Essas evidências, que falam por si mesmas. Estes achados se explicam. A inexistência de células impossibilita o orgasmo.



RE
- Mas não seria importante estudar outros fatores envolvido no orgasmo, incluindo a relação entre o casal?

Jannini
- Você tem de saber que ainda são necessários outros tipos de estudo. É preciso aumentar o número de descobertas.













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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Dívida Externa - Lula X FHC



Dívida Externa do Brasil - Lula X FHC
21/02/2008 - Paulo Henrique Amorim - Máximas e Mínimas 964
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/479001-479500/479013/479013_1.html



Lula: Sorry, Periferia.


Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PIG, Partido da Imprensa Golpista.

. Quando FHC deixou o Governo, em dezembro de 2002, o Brasil tinha uma dívida externa de US$ 165 bilhões.

. Hoje, a dívida externa do Brasil, segundo o Banco Central, é de MENOS US$ 4 bilhões.

. Quando FHC deixou o Governo, em dezembro de 2002, as reservas do Brasil eram de US$ 38 bilhões.

. Hoje, segundo o Banco Central, as reservas são de US$ 180 bilhões.

. Ou seja, hoje o Brasil tem quase cinco vezes mais reservas do que tinha no Governo FHC.

. O que é uma maneira de dizer que o Brasil hoje está cinco vezes melhor.

. O Brasil independente nasceu em 1822, com a obrigação de pagar as dívidas de Portugal com os bancos ingleses.

. De lá pra cá, até hoje, o Brasil foi um país endividado.

. A chamada "crise da dívida" explodiu em 1982, quando Delfim Netto, Ernani Galveas e Carlos Geraldo Langoni tiveram que administrar os efeitos da desastrada falência do México.

. Hoje, o Brasil, se quiser, entra para o Clube dos Credores, o Clube de Paris.

. Assim como, se quiser, pode entrar para a Opep.

. O PIG creditará tudo isso às luzes que emanavam do Farol de Alexandria (o FHC) e aos "bons ventos" da economia internacional.

. Como se o Presidente Lula, Henrique Meirelles, Guido Mantega e os brasileiros não tucanos, de uma maneira geral, formassem um conjunto de néscios.

. A notícia de hoje – o Brasil passa a ser credor – merece que o Presidente Lula diga: "Nunca na História desse país".

. Eu, no lugar dele, diria como o Ibrahim: "Sorry, periferia".












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domingo, 24 de fevereiro de 2008

Escutatória - Rubem Alves



Escutatória
- Rubem Alves -


Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio (os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio,[...], abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas).
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado". Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.











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sábado, 23 de fevereiro de 2008

Garçom, eu quero água da torneira



Garçom, eu quero água da torneira

Ricardo Neves - Revista Época nº 508 de 11/02/2008
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81578-6077-508,00.html


Os restaurantes devem assumir a responsabilidade ambiental de não servir água em garrafa.

Ricardo Neves

Meu amigo, presidente de uma multinacional, gaba-se de que, há mais de 20 anos, nem ele nem sua família bebem água de torneira. O argumento central de meu amigo é sua falta de confiança na qualidade da água do serviço de abastecimento. Além disso, ele acha que os filtros são um trambolho. Formado em Engenharia de Produção, meu amigo estima que, nesse período, ele e sua família devam ter consumido algo em torno de 75.000 litros de água, a maior parte engarrafada na embalagem PET.

Para meu amigo, essa forma de pensar era aparentemente natural, correta e inquestionável até recentemente, quando ele participou do Fórum Econômico de Davos, encontro anual da elite econômica e política do mundo, na Suíça. Ali ele conheceu Alice Waters, proprietária do Chez Panisse, um badalado restaurante orgânico de Berkeley, na Califórnia. Aí, a água de beber passou a ter um outro significado em sua vida.

Alice foi convidada pelos organizadores do Fórum de Davos para um debate sobre a cadeia de produção de alimentos. As pressões sobre esse setor são uma conjugação do crescente custo de energia com a necessidade de as empresas diminuírem seu impacto sobre o meio ambiente. Como um dos participantes disse no evento, "os preços para produzir coisas que são ruins para o planeta serão cada vez mais elevados devido às políticas para a redução de emissões de gases do efeito estufa".

Alice não é dona de um mero restaurante natureba. O Chez Panisse tem sido listado, ano após ano, entre os 50 primeiros no prestigiado anuário "Os 50 Melhores Restaurantes do Mundo", da revista britânica Restaurant. Alice tem nove livros de receitas que se tornaram best-sellers nos Estados Unidos. Para ela, a água da torneira é boa e, no ano retrasado, ela decidiu simplesmente parar de vender água engarrafada em seu restaurante.

Além de administrar seu restaurante, Alice é hoje uma líder empresarial, sobretudo de produtores orgânicos. Ela é também colaboradora das universidades Yale e Berkeley no desenvolvimento de projetos para a rede de escolas públicas da Califórnia. O objetivo é integrar nutrição e sustentabilidade ambiental. Ela estrutura tanto cardápios da merenda quanto conteúdos do currículo escolar. Alice, portanto, na questão da alimentação, influencia não só a produção como também os estilos de vida de pessoas importantes e formadoras de opinião. Por isso ela foi falar em Davos. E foi conversando com Alice que meu amigo compreendeu que toda a energia para extrair, gaseificar, engarrafar e transportar a água é simplesmente um desperdício injustificável. Mesmo os esforços de reciclagem da embalagem PET, apesar de bem-intencionados, são insuficientes para compensar o descarte das garrafas de água.


Os esforços de reciclagem de garrafas PET são insuficientes para compensar o descarte das embalagens.


Alice costumava vender 25 mil garrafas de água mineral por ano em seu restaurante. Agora, seus clientes podem solicitar a água encanada, que é filtrada e servida em jarras. Se o freguês quiser água com gás, o restaurante gaseifica o líquido da torneira na hora. Tudo isso oferecido de graça. Segundo Alice, no Chez Panisse não há registro de queixas de seus clientes devido à mudança da política da água: "As pessoas perceberam que faz todo o sentido e que ainda economizam".

Meu amigo tem um espírito de homem de negócio muito entranhado para se tornar um ecofundamentalista. Mas mandou instalar um filtro em casa. E passou a mesma orientação para as empresas que administra. Basta de água em garrafas. Ele diz que uma das perguntas que trouxe de Davos é uma espécie de aposta: qual será a primeira grande rede de restaurantes que vai ter a coragem de inovar e oferecer água da torneira grátis para clientes exigentes como ele? Isso é que será responsabilidade socioambiental no setor.







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Armas - Divaldo Pereira Franco fala sobre armas



Divaldo Pereira Franco fala sobre armas



(clique na seta acima - duração 1:24 minutos)







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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dono Neurótico / Cão Nervoso



Dono Neurótico - Cão Nervoso
Marília Russi de Carvalho


Estudando a história européia é possível observar que os animais de estimação tinham profunda relação com a posição social de seus donos. A um plebeu não era permitido possuir um animal apenas por estimação, pois ele não tinha condições de alimentar um animal que produzisse nada. Os animais de estimação só podiam pertencer à aristocracia.

Atualmente as pessoas possuem animais de estimação, especialmente cães, por diversas razões, porém o "status continua a ser uma delas". O cão representa para seu dono a admissão a um grupo de elite de "proprietários de cães" e, para muitos, uma projeção freudiana de seu próprio ego. Muitos cães atendem aos desejos frustrados de seus donos, representando poder, agressão, liberdade sexual, virilidade. Um cão feroz reforça a confiança de seu dono como o faria qualquer outra arma.

Um cão em casa significa para muitos de nós a sensação de ter alguém de confiança a nos esperar, que nos aceita e confia em nós. Um cão pode ser um confidente para uma pessoa solitária. Muitos psicólogos e terapeutas estão usando cães nos hospitais para facilitar o relacionamento do paciente com a família e com os médicos.

Para atender a estas necessidades, o homem moldou fortemente o cão à sua própria imagem. Cruzou seletivamente cães com aparência frágil e infantil que apelam para o instinto maternal das pessoas. Muitas raças apresentam a "síndrome de Peter Pan", permanecendo infantis e dependentes a vida toda. Outros estão sendo transformados em verdadeiras "máquinas de destruição", reflexo evidente de uma sociedade altamente agressiva.

Abruptamente, com uma rapidez exagerada, em comparação com a velocidade normal com que a evolução ocorre na natureza, estamos exigindo que os cães deixem de ser caçadores e protetores corajosos e equilibrados para se tornarem, de um lado, animais dóceis, dispostos a aceitar qualquer pessoa estranha, tolerar crianças e ignorar gatos e, de outro lado, animais extremamente agressivos, capazes de atacar e matar qualquer um que lhe apareça à frente.

Depois de termos selecionado geneticamente os cães para terem maturidade sexual precoce (as fêmeas de lobos têm seu primeiro cio após os dois anos) para facilitar a seleção da espécie, exigimos deles que vivam uma vida de quase total celibato. Têm que permanecer indiferentes aos excitantes odores de dezenas de cadelas no cio, morando pela vizinhança.

A obsessão por exposições caninas, a longo prazo, tem resultado em alterações genéticas prejudiciais a muitas raças. Os cruzamentos consangüíneos para a obtenção de características exageradas como, por exemplo, focinhos muito achatados, pernas muito curtas, joelhos muito angulados, etc, favorecem um aumento na freqüência de mutações como agnatismo, calcificação intervertebral, displasia coxo-femural, etc. Nas exposições, vemos Beagles, Retriervers, Setters, tão graciosos nas pistas – permanecendo imóveis por horas, como verdadeiros mortos-vivos que nem lembramos que cães assim nunca poderiam ser usados em campo, contradizendo sua principal aptidão. Os cães domésticos estão perdendo o vigor físico e moral que já tiveram.

As pessoas que trabalham fora durante o dia todo, impõem uma carga de stress a seus animais de estimação. O cão que foi selecionado geneticamente para precisar de companhia é então abandonado durante a maior parte do tempo. A reação mais comum é a destruição de objetos domésticos como móveis, roupas, sapatos. Quando o dono chega em casa, o cão solitário pode reagir de modo exagerado, pulando, correndo de um aposento a outro, urinando de modo incontrolável. Há também o número crescente de animais que se auto-mutilam, lambendo e mordendo seus próprios membros.

O tédio do confinamento imposto pelo homem pode pesar muito sobre os cães. Um meio de amenizar o isolamento de cães solitários é lhe proporcionar a companhia de outro animal, mesmo que de outra espécie. Quando os cães têm companhia, o tamanho do espaço em que vivem parece tornar-se menos importante.

Um das mais tristes alterações comportamentais induzidas pelo homem ao cão é a "canilose", que se desenvolve quando o filhote é mantido isolado e sem estímulos durante a fase de socialização. Dos 30 aos 60 dias de vida, é fundamental que o filhote tenha contato com pessoas diferentes e com outros cães e até com outros animais, para que receba diferentes estímulos como sons, calor, luz, mordidas, etc. São estas experiências que tornam os filhotes adaptáveis e equilibrados. Se, no entanto, o filhote é separado da ninhada e da mãe precocemente, ele apresenta no futuro, distúrbios de comportamento, algumas vezes irreversíveis. Quando o filhote permanece por longos períodos expostos em vitrines de lojas, muitas vezes quando é vendido o dano já está feito.

É preciso reconhecer as amplas diferenças de temperamento entre as diversas raças caninas, para não errarmos tratando todos os cães da mesma forma. Para os tímidos como os miniaturas, um olhar direto ou uma palavra áspera geralmente é castigo suficiente. O controle excessivamente rígido pode anular a personalidade de tais cães. Raças mais independentes como as de caça, exigem mãos mais firmes. O dono precisa impor limites com firmeza, justiça e paciência. Rispidez ou liberalidade excessiva pode resultar em desajuste social semelhante ao de uma criança totalmente dependente ou completamente rebelde.

Finalmente, os cães são afetados não apenas pelas neuroses individuais, mas também pelas de toda uma sociedade. Muitas pessoas hesitam em esterilizar seus animais devido a grande identificação que existe entre o dono e seu animal de estimação. Homens e mulheres tendem a sentir como se estivessem castrando a si mesmos quando levam seus cães para serem operados.

Como o homem vem submetendo os cães drasticamente as suas próprias necessidades é justo que ele aprenda a prevenir e combater muitas das neuroses que se tornaram tão comuns. O melhor seria que antes de adquirir um animal para estimação, o homem fizesse uma avaliação de seus próprios hábitos de vida e que procurasse escolher a raça canina com melhores chances de se adaptar a tais hábitos, em vez de se levar por modismos e aparências. Vale lembrar que tomar conhecimento sobre como lidar e educar a raça escolhida também são fatores importantíssimos para que a convivência dê certo. Com certeza isto diminuiria o número de acidentes com cães e também o abandono de animais nas ruas.




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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Como ajudar a salvar o planeta com uma sacola na mão?



R e p a s s a n d o:


Como ajudar a salvar o planeta com uma sacola na mão


Não use sacolas plásticas. Não toque nelas. Não chegue perto delas. Elas mordem. Elas penetram seus poros, infestam sua casa e se grudam na terra cheirosa do seu planeta. Seu planeta fica indigesto, mastigando a sacola de plástico por 50 anos, tendo azia por outros 50, tentando absorvê-la por mais 50 anos.

Enquanto isso você nasce, cresce, reproduz e morre. Seu filho nasce, cresce torto, reproduz mal e morre logo. Seu neto nasce mal, não cresce e, cercado por sujeira plástica e poluição, desiste de reproduzir.

Por isso, volte a usar as velhas, boas, MUITO MAIS RESISTENTES e DURÁVEIS SACOLAS DE PANO. Fale com sua avó sobre isso. Ela deve ter em alguma gaveta uma bela sacola de lona ou de pano grosso. Vá ao mercado com sua própria sacola, é muito mais maneiro. Quer uma dica: pinte o tecido de sua sacola do seu jeito. Por exemplo, pinte uma árvore nela. Ou uma Lua Cheia. Ou o que você quiser, afinal, você é exclusivo!

Fale com o gerente do supermercado. Diga para ele disponibilizar sacolas de pano aos clientes. Assim ele não terá de comprar milhões de futuros dejetos plásticos e os netos dele viverão num planeta mais limpo. Diga para ele: "Se você tem consciência ecológica, faça uma promoção: quem vir às compras com sacola de pano ganha 1% de desconto ou 30 dias no cheque ou meia dúzia de pãezinhos, ou um grande ABRAÇO...".

Se você tiver grana, COMPRE SACOLAS DE PANO e as distribua na entrada dos mercados.

Se você não tiver grana, mas tiver alguma habilidade manual, FAÇA as sacolas, PINTE frases legais nelas e vá para a porta do mercado vendê-las.

Eis algumas sugestões para as estampas das sacolas:

-
Eu ajudo a salvar o planeta, pois eu uso sacola de pano;

- Uma sacola na mão e uma idéia na cabeça;

- Use sacola permanente, porque a Terra não é descartável;

- Quem usa sacola de pano é mais inteligente;

-
Eu sou mais feliz por usar sacola de pano, pois assim ajudo a preservar nosso planeta;

- Etc., etc., etc.

Se você for político, crie leis incentivando o uso de sacolas, sacos, mochilas, malas, maletas feitos de pano, lona, jeans, couro, papelão, folha de bananeira ou outro material BIODEGRADÁVEL. Crie um concurso municipal para incentivar o design de sacolas e de estampas.

Se você for gerente de supermercado ou de loja NÃO USE MAIS SACOLAS PLÁSTICAS, pelo AMOR ao planeta.

Se você for consumidor, compre ou confeccione sua própria sacola de material não-plástico. E ANDE COM ELA PELO MUNDO, DE MÃOS DADAS PARA SALVAR O PLANETA.












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Indústria hoteleira que acolhe, sem preconceitos, os homossexuais



Uma cama de casal, sem preconceito

Ricardo Freire - Revista Época nº 504 de 12/01/2008
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81024-6050-504,00.html


O blogueiro fala da indústria hoteleira que acolhe, sem preconceitos, os homossexuais

Ricardo Freire


Hetero-friendly - ou seja, aberto a héteros - é o slogan do recém-inaugurado Hotel Axel, em Buenos Aires. Com 46 apartamentos e duas suítes, o Axel é o primeiro hotel na América Latina a dirigir-se especialmente (mas não exclusivamente) a gays e lésbicas. A "concessão" ao público heterossexual não é apenas uma jogada de marketing. É também uma retribuição: há muito tempo a indústria hoteleira é um dos setores mais "gay-friendly". A verdade é que gays e lésbicas nunca dependeram de agências ou hotéis específicos para se tornarem viajantes inquietos e curiosos.

Neste caso, o preconceito e o eventual constrangimento costumam estar do lado de cá do balcão. Em pleno século XXI, ainda há quem não se sinta à vontade de assumir a verdadeira condição de sua companhia de viagem - ou que refugue quando o recepcionista pergunta se a reserva para cama de casal está correta. Na imensa maioria das vezes, a checagem do funcionário é meramente burocrática (e, diga-se, é feita com freqüência cada vez menor). O viajante gay passou a ser cortejado pelas grandes redes hoteleiras e pelos órgãos oficiais de turismo. Recentemente, Berlim e a Cidade do Cabo mandaram ao Brasil comissões de divulgação das atrações GLS de suas cidades. Em São Paulo, a Parada Gay tem status semelhante ao da Fórmula 1 como evento turístico, e todos os hotéis receberam treinamento para tratar adequadamente os visitantes. No Rio de Janeiro, muitos hotéis mantêm guias da cena GLS no balcão do lobby, junto às filipetas de vôos duplos de asa-delta, passeios de escuna às ilhas tropicais e idas ao Maracanã.

O surgimento de agências e, agora, de hotéis direcionados a gays e lésbicas se deve menos a combater preconceitos que a celebrar o nicho. É como comprar um pacote de mergulho de uma operadora especializada: cliente e vendedor compartilham da mesma cultura. No quesito hospedagem, as vantagens são ainda mais evidentes, já que, ao menos por enquanto, só num ambiente GLS um casal do mesmo sexo pode se comportar como um casal convencional se comporta em qualquer lugar. Já pensou passar uma lua-de-mel sem poder trocar beijos ou carinhos em público com sua cara-metade? Com casais de gays e lésbicas isso acontece o tempo todo.


Há muito tempo a indústria hoteleira é um dos setores mais "gay-friendly" da economia


Na maior parte dos destinos, o viajante gay procura exatamente o mesmo que todos: não há nada intrinsecamente GLS nas Pirâmides, em Machu Picchu, nas Rochosas Canadenses ou no encontro das águas do Negro com o Solimões. Há outras viagens, porém, em que gays e lésbicas vão em busca dos lugares onde se sentem mais à vontade. Não apenas por causa das possibilidades de romance e sexo que esses lugares proporcionam - e não há nada de mau nisso; na prática, a única diferença entre uma micareta e uma parada gay é o tipo de música, mas pela sensação inusitada de sentir-se parte da maioria.

Esse é o fascínio exercido por bairros como Chelsea, em Nova York; Chueca, em Madri; Schöneberg, em Berlim; Marais, em Paris; Darlinghurst, em Sydney; ou Waterkant, na Cidade do Cabo: lugares onde gays e lésbicas podem se portar ao livre como se estivessem em ambientes fechados do mundinho. Nenhum desses bairros, contudo, é impermeável a não-gays. Se bairros tivessem slogan, talvez usassem o mesmo do Hotel Axel: "hetero-friendly".

Tudo isso é só para dizer que, se você viajar com uma companhia de viagem do mesmo sexo e o recepcionista perguntar se a cama reservada é mesmo de casal, não tenha receio de dizer que sim. Ele também faria questão de confirmar se a reserva fosse para o andar dos fumantes.











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domingo, 17 de fevereiro de 2008

Segredo é para quem sabe guardar



Segredo é para quem sabe guardar

Ricardo Amaral - Revista Época nº 508 de 11/02/2008
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81581-9570-508,00.html


O governo que vaza informação sigilosa na internet precisa de verba secreta?


Ricardo Amaral



Os jornais estão repletos de comentários a propósito do vazamento de informações sobre despesas da Presidência da República nos últimos dias, com destaque para aquelas que deveriam estar preservadas pelo sigilo. Com base nessas informações, colhidas numa página do próprio governo na internet, afirma-se uma vez mais que o Planalto gasta mal, gasta demais ou gasta com luxos e supérfluos, a juízo do comentarista. Num país onde a agenda política está contaminada pelo denuncismo e pela troca de acusações no "campo ético", compreende-se que seja esse o aspecto mais destacado no episódio do Portal da Transparência. Não é o único e talvez nem seja o mais importante.

Nos países que lidaram mais que nós com a guerra e seus intervalos, com sedições internas ou com as ameaças do terrorismo – quer dizer, na maior parte do planeta –, o foco principal desse caso seria outro. Seria o vazamento de informações sigilosas, inclusive dos dados relativos às despesas do presidente da República e à garantia da segurança de seus familiares. O que no Brasil é acessório, noutros lugares seria o próprio escândalo. Recorrendo a um chavão surrado: na Europa, no Japão ou nos Estados Unidos, já teriam caído o ministro responsável pela segurança e seu colega da transparência.

A Constituição estabelece a publicidade dos atos de governo (incluindo gastos) como um dos princípios para o exercício do poder público. Em dois itens do Artigo 5º, que trata dos direitos individuais, ela assegura, no entanto, a prerrogativa do segredo para proteger "a intimidade do cidadão" e os assuntos que envolvam a "segurança da sociedade e do Estado". Chegamos a um empate constitucional, pois o mesmo artigo invocado para manter em segredo os gastos da segurança garante o sigilo bancário e das comunicações pessoais.

Há quem veja exagero e má-fé nas restrições que protegem esse tipo de gasto – e que foram miseravelmente furadas pelo Portal da Transparência. Desse ponto de vista, o segredo serviria para encobrir mordomias, como a compra de carnes finas e vinhos caros para a mesa do presidente e seus convivas. Suspeitas dessa natureza saem reforçadas pelo fetiche dos pagamentos em cartão corporativo, quando se lê que verbas teoricamente secretas pagam a manutenção da piscina dos agentes que protegem a filha do presidente.


Governo que vaza sigilo de Estado não merece fazer despesas com verba secreta.


Do ponto de vista da segurança, o problema é outro. Tornaram-se públicas informações que podem indicar quantos são os agentes envolvidos no esquema de segurança e de que maneira eles operam. Ficaram mais vulneráveis os agentes, o presidente da República e, por extensão, o Estado. Dito de outra forma: quanto vale no mercado do crime a informação de que fulano de tal, militar mal pago, que mora naquele bairro, costuma dormir fora e leva no bolso um cartão corporativo é um dos agentes que protegem os netos do presidente da República? Quanto renderia extorquir esse cidadão?

Diante de situação semelhante, jornais de outros países provavelmente escolheriam o rombo no esquema da segurança para suas manchetes. A lista de compras do palácio e dos agentes renderia, certamente, uma nota pitoresca
. Isso não serve como consolo para o Planalto. Foi gente do governo quem fez essas despesas e permitiu que elas fossem divulgadas na internet. A questão não é saber se a transparência deve ser sacrificada em nome da segurança. É saber se um governo que não é capaz de preservar segredos de Estado merece a prerrogativa de fazer despesas com verba secreta.












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sábado, 16 de fevereiro de 2008

Os Valores da Vida (Cleide Canton)



Contribuição de Sereníssima.
A autoria desse texto foi erroneamente atribuído a Rui Barbosa.
A verdadeira autora é Cleide Canton.
Veja mais informações a respeito no site abaixo:
 
 
 




Os Valores da Vida

Texto de Cleide Canton e Declamado por Rolando Boldrin






Clique na seta acima - Duração de 03:11 minutos.












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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Pelas Frestas da América




Pelas Frestas da América
Márcia Pinheiro - Revista Carta Capital nº 482 de 13/02/2008
http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=9&i=80


Alojamentos fétidos, homens e mulheres empilhados em camas minúsculas, banheiros sem água, documentos retidos e quartos trancados, para evitar fugas. A repugnância causada pela cena soa familiar e remete o leitor a fazendas mal fiscalizadas nos rincões do Brasil ou a linhas de montagem em nações emergentes, como China e Índia, que se tornaram o chão de fábrica da engrenagem de produção global. Só que a selvageria acontece nos Estados Unidos, exatamente na Flórida, em Oklahoma e em Saipan (protetorado americano situado no Oceano Pacífico).

É sobre o trabalho escravo em território americano
que, por sete anos, se debruçou John Bowe, jornalista colaborador dos periódicos The New Yorker e The New York Times Magazine. Com uma diferença: ele põe o dedo na ferida do país que alardeia liberdade, respeito aos direitos civis e igualdade. As situações de abuso que testemunhou resultaram no livro Nobodies, publicado em 2007 pela Random House e disponível apenas em inglês nas livrarias brasileiras.

"A mídia cortou as verbas para a apuração nos EUA. Ninguém mais viaja e conversa com os pobres. Os jornalistas estão plugados a laptops e telefones. Quantos imigrantes pobres têm celulares ou computadores?", diz à CartaCapital. A inquietação permeia toda a correspondência por e-mail, trocada por vários dias entre Bowe e a revista, pois ele ainda vive em Saipan, 15 horas de diferença de fuso horário com São Paulo. "Decidi bancar o projeto, com o suporte financeiro de algumas palestras em universidades e um prêmio de 12 mil dólares que ganhei com uma reportagem", diz o autor, hoje com 43 anos.

O livro é dividido nas três regiões onde o jornalista apurou as histórias. Os casos sobre a Flórida são familiares aos brasileiros. Só de partida. Todos sabem que milhares emigraram para os Estados Unidos, para tentar a sorte. Muitos deles de maneira ilegal, sem passaportes, que desembolsaram entre 10 mil e 15 mil dólares para ser guiados por coiotes através da fronteira com o México. Pouco se sabe, no entanto, e o livro conta em que armadilha alguns caem quando "bem-sucedidos" na travessia.

Boa parte vira colhedora de tomates e laranjas, que enchem os cofres da
KFC, Burger King, Pizza Hut, Tropicana (da Pepsi) e Minute-Maid (da Coca-Cola). Indiretamente. Há sempre um intermediário latino-americano, que dá as ordens. Daí a dificuldade de os casos serem levados aos tribunais. "Os fazendeiros da Flórida venderam uma caixa de tomates de 11 quilos por 10,27 dólares, em média, entre 2005 e 2006. Os imigrantes que colhem os frutos recebem 45 centavos por caixa. Para ganhar 50 dólares ao dia, um trabalhador teria de colher 2 toneladas de tomate", diz um trecho do livro-reportagem. "Após sete dias de trabalho, o capataz deduz da remuneração 40 dólares pelas refeições, 30 pelo alojamento e outros 30 pelos sacos usados para colher a produção." Mesmo trabalhando de 14 a 16 horas ao dia, sobram apenas 67 dólares semanais para o bóia-fria local, segundo o entrevistado mexicano García Orozco, que cruzou a fronteira em 2001 e se tornou um ativista antiescravidão.

Há clareza para os trabalhadores de quem é o colonizador (americano) e quem é o colonizado (latino-americanos)? Bowe diz que as situações são confusas. No caso da Flórida, o agronegócio é claramente beneficiado, com o apoio das classes média e alta, além dos acionistas das empresas. "Há uma imensa pressão para achatar os salários", afirma. Mas o bad guy aparece sempre sob a forma de um mexicano de pele escura. Os imigrantes não têm idéia de que, acima do bandido que fala sua língua, há uma rede de interesses muito poderosa. "Conversei com um menino guatemalteco, que caiu do caminhão quando colhia tomates, e perguntei: quem é o seu patrão? Ele não sabia. Só disse que um sujeito com o apelido de Shorty o levava para o trabalho".

Já na cidade de Tulsa (Oklahoma), a relação senhor/escravo não poderia ser mais clara. Quem mandava era a empresa JPC, pertencente ao empresário americano John Pickle. Ele expandiu os negócios de siderurgia no Oriente Médio, mas faltava-lhe mão-de-obra especializada no Kuwait. "O povo lá não gosta de trabalhar", disse Pickle ao autor, sem meias palavras. A solução foi importar trabalhadores da Índia a ser treinados nos EUA e posteriormente enviá-los ao país produtor de petróleo.

Inicialmente, seria um programa de treinamento. Só que o empresário percebeu o quão vantajoso era manter os indianos, a maioria soldadores, na fábrica em Tulsa. Documentos retidos, instalações precárias e proibição de sair à noite pela cidade foram as leis da JPC. No mais, por que pagar 5,15 dólares por hora a um soldador americano se o trabalhador indiano recebia apenas 3,17 dólares? Nesse ponto da pesquisa, Bowe chegou à conclusão de que o estado de paz e liberdade nunca foi óbvio e fácil na história da civilização. "Nós (os homens) pertencemos a uma espécie sombria", afirma.

Na distante ilha de Saipan, a atividade econômica sempre foi mesclada por escravidão sexual, uma espécie de bordel paradisíaco, freqüentado por endinheirados. Com a globalização, tornou-se um celeiro de trabalhadores baratos para a indústria têxtil, vindos das regiões paupérrimas da China. Grandes corporações da moda, descreve o livro, como Ralph Lauren/Polo, Calvin Klein, Liz Claiborne e Sears, são ao menos cúmplices nas acomodações inadequadas, salários irrisórios e acusações de que muitas mulheres grávidas são obrigadas a optar entre o aborto e o emprego.

Em todas as páginas, Bowe foi preciso em documentar os fatos, com processos judiciais, depoimentos das vítimas e visitas às instalações fabris mencionadas. Ainda assim, ele se cansa de explicar por que classifica tal tipo de trabalho como escravo e não um mero desrespeito à relação trabalhista. CartaCapital pergunta se é difícil, para o americano médio, admitir que isso ocorra em seu país. "Sim. Fiquei surpreso nas entrevistas após a publicação do livro. Todos os jornalistas perguntaram: isso é escravidão? De um lado, os americanos sentem-se confortáveis porque, teoricamente, são sensíveis à desigualdade de renda. Ponto. De outro, eles repelem quem os faz pensar ou discutir a situação com mais profundidade, porque é meio caminho andado para a depressão", define.

O autor de Nobodies acredita firmemente que apenas as organizações de trabalhadores são capazes de conter a fúria exploratória. Houve casos de sucesso na Flórida, Tulsa e Saipan, com a punição dos maus empregadores. "É preciso fazer barulho e atrair a atenção da mídia para os governos se mexerem", diz. Em relação ao próximo projeto, após sete anos de pesquisa sobre escravidão, Bowe é simples: "Quero escrever algo que torne minha alma feliz novamente. Será sobre o amor, sobre pessoas que ajudam as outras e as tornam merecedoras de respeito". Em tempo: o autor ainda mora em Saipan, porque se apaixonou por uma moça local e espera que ela concorde com sua proposta de levá-la para Manhattan. Faz todo o sentido.




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