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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Saudades da Idade Média



Saudades da Idade Média

Redação CartaCapital - Revista Carta Capital nº 482 de 13/02/2008
http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=68


Terá sido uma provocação a José Gomes Temporão? Durante o lançamento da Campanha da Fraternidade 2008, na quarta-feira 6, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou uma grande ofensiva contra a proposta de legalização do aborto, as pesquisas com embriões humanos e a eutanásia, medidas defendidas pelo ministro da Saúde.

A Igreja tem a tradição de eleger temas consensuais para a Campanha da Fraternidade, como a preservação da Amazônia e a defesa dos direitos de portadores de necessidades especiais, assuntos que marcaram as discussões das últimas duas edições. Desta feita, porém, o episcopado decidiu afrontar o Estado laico, ao ressaltar assuntos que devem ser tratados fora do âmbito dos dogmas religiosos. Condena qualquer proposta de ampliação das hipóteses de aborto legal e sugere, inclusive, a revogação do direito de interromper a gravidez em casos de estupro ou risco para a mãe, como prevê a legislação brasileira.

"O estupro é uma situação extremamente dolorosa, mas conheço numerosos casos de superação de mães vítimas de violência. Também queremos difundir o exemplo da Santa Gianna Beretta Molla, que preferiu morrer para permitir o nascimento do filho", diz o secretário-geral da CNBB, dom Dimas Lara Barbosa.

Sobre o embate com Temporão, que chegou a ser ameaçado de excomunhão pelo papa Bento XVI, por conta da defesa da descriminalização do aborto, o bispo é diplomático. "Em dezembro, o ministro participou, ao meu lado, de uma celebração inter-religiosa no Corcovado, para lembrar a luta contra a Aids. Podemos ter divergências em relação aos métodos, mas, nessa ocasião, estávamos unidos pela vida".

Escaldado dos confrontos com a Igreja, Temporão evitou polemizar e elogiou a escolha dos assuntos a ser debatidos pelos católicos. Dom Dimas, por sua vez, procurou enfatizar que o tema da Campanha da Fraternidade foi escolhido, em 2006, pelas organizações de base da Igreja. "Muito mais do que ser contra isso ou aquilo, trata-se de uma campanha em favor da vida humana", pontua.

Ainda assim, o religioso não deixou de mandar o seu recado para o governo. "Não se trata da defesa de um dogma religioso, mas de valores humanos e da análise da boa ciência. Qualquer médico sabe que a vida começa na concepção. Além disso, devemos lembrar que é o indivíduo que precede o Estado, e não o contrário".









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Homossexuais Idosos




Homossexuais Idosos
Wálter Fanganiello Maierovitch - Revista Carta Capital nº 482 de 13/02/2008
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=72



A Alemanha saiu na frente e o governo do presidente Lula deveria aproveitar a idéia, que está sendo aplaudidíssima em toda a Europa. Conforme entidades de prestígio internacional dedicadas aos direitos humanos, a iniciativa alemã tende a se multiplicar pelo planeta.


A atitude do governo da premier Angela Merkel pode até ser vista como um ato a redimir um passado de horrores. Isto em um país que proibia, pelo inesquecível parágrafo 175 da Constituição de 1935, as relações homossexuais. Durante o regime nazista, Hitler, com base no parágrafo 175 do texto constitucional, perseguiu, esterilizou e exterminou homossexuais.


Com efeito, num prédio de apartamentos da berlinense Asta-Nielsen Strasse, número 1, bairro de Pankow, começou a funcionar, neste fevereiro de 2008, a primeira casa de repouso e tratamento destinada a abrigar gays e lésbicas entrados na terceira idade.


No momento, são 28 quartos com assistentes sociais e enfermeiros selecionados entre homossexuais. Por evidente, a diretora responsável pelo estabelecimento é lésbica.


Enfim, um humano e sensível toque cor-de-rosa de cidadania, em um mundo onde os passantes ainda não apreenderam a conviver com as diferenças. E em que o preconceito ainda impera, quando não se deveria esquecer a perseguição processual nazista a mais de 100 mil gays, com 15 mil enviados aos campos de extermínio e dos quais apenas 4 mil sobreviveram ao Holocausto.


É interessante notar que a geração daqueles acolhidos em Berlim também teve, como tantos outros espalhados pelo planeta, de levar uma vida de fachada. No Brasil, é significativo o mote da marchinha carnavalesca Maria sapatão, sapatão, sapatão. De dia é Maria, de noite é João.


Ao traçar o perfil dos abrigados, a diretora da supracitada primeira casa de repouso para homossexuais concluiu tratar-se de pessoas que, pela pressão social, "viveram vida dupla", no que toca à exteriorização da sexualidade.


A merecer a reflexão, em especial pela direita tedesca, que reagiu e considerou a iniciativa discriminatória e a servir apenas para isolar ainda mais os gays e as lésbicas, a diretora da Casa de Repouso foi ao ponto. Para ela, os idosos homossexuais precisam de um lugar para falar dos seus amores, das suas experiências e, também, para verbalizar seus traumas. E, sem dúvida, nada melhor do que um local adequado, com funcionários preparados à interlocução.


Um dos atendentes da Casa de Repouso frisou que nenhum homossexual da clínica precisará mais olhar ao redor primeiro para, então, beijar um visitante seu. Em uma referência a um tempo hipócrita, em que o homossexual acionava intuitivamente freios inibitórios para evitar aquilo que escandalizava conservadores, como o beijo na boca.


O endereço da casa de repouso, no bairro de Pankow, é dado como provisório. Todos pensam em um prédio de oito pavimentos, já com negociações abertas, em Nollendorplatz, que é o coração do mundo gay de Berlim. Pelas estimativas, Berlim conta com 4 mil homossexuais.


Os moralistas protestam contra a futura transferência e, para disfarçar, falam em auto-imposta discriminação, como a se isolar num ambiente protegido, num retorno à guetização. Para os liberais, que falam em libertação também na velhice, o ideal seria a implantação de clínicas similares, de repouso e tratamento, no Village, em Nova York, e no Soho de Londres, ambos redutos gays.


A proposta de gestão para a clínica em Nollendorplatz é interessante. O ancião poderá, como regra, levar para o apartamento os seus guardados, tais como cartas, fotos, diários e livros. E haverá lugar para móveis e peças decorativas que lhe marcaram a lembrança.


A meta é que cada um continue a administrar as próprias contas e despesas, com funcionários a atuar apenas em auxílio e quando solicitados.


Na inauguração, um gay que sobreviveu a um campo nazista de extermínio brincou ao falar já saber o que fará quando envelhecer.


A clínica para repouso de homens e mulheres homossexuais é uma iniciativa que tardou a surgir. Na verdade, a Alemanha devia uma resposta bem antes. O parágrafo 175 da Constituição de 1935 prevaleceu até 1994, ou seja, até bem depois da queda do Muro de Berlim.


Sob o regime nazista, Hitler logrou alterar o artigo de modo a ampliar a proibição. Queria incluir beijos, abraços e exteriorizações de comportamento duvidoso. A pena de castração ou esterilização passou, em 1942, para a de morte. Nos campos de extermínio, os gays, para identificação, usavam uniforme com um triângulo colorido desenhado e com a base virada para cima.


Um dos documentários premiados no Festival de Berlim de 2000 contou a vida de cinco gays sobreviventes de um campo de extermínio. O título era emblemático: Paragrah 175.









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domingo, 10 de fevereiro de 2008

A seleção de ONGs para os convênios com o governo é brecha para a corrupção



R$ 10 bi Sem Controle
Murilo Ramos - Revista Época nº 508 de 08/02/2008
Fotos de Edilson Rodrigues & Alberto César


O governo federal repassou R$ 15 bilhões às ONGs entre 1999 e 2006.
Desse total, dois terços não foram fiscalizados.


Diversão
Uma passista do bloco do boi Caprichoso, de Parintins, Amazonas.
O show será investigado pela CPI.



As cerca de 200 mil organizações não-governamentais (ONGs) em atividade no Brasil atuam nas mais diversas áreas. Uma delas, a Agência Nacional de Gestão de Recursos para a Hiléia Amazônica (Angrhamazonica), chama a atenção pela versatilidade. Criada para atuar na área ambiental, ela é um sucesso no ramo de entretenimento. A Angrhamazonica obteve uma verba de R$ 2,5 milhões dos ministérios da Cultura e do Turismo para organizar um show dos bois Garantido e Caprichoso, atrações típicas do Carnaval de Parintins, no Amazonas, no Réveillon de Brasília.


Tanto o Ministério da Cultura quanto o do Turismo afirmam que aceitaram o serviço da entidade porque ela cumpriu todas as exigências legais. Mesmo com toda a burocracia em dia, a Angrhamazonica é um dos casos investigados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das ONGs, responsável por apurar irregularidades no repasse de dinheiro público. Para começar, o valor do negócio está sob suspeita. O show durou cerca de uma hora e custou R$ 2,5 milhões. No mesmo dia, o governo do Distrito Federal gastou bem menos, R$ 1,8 milhão, para organizar um espetáculo de 15 horas de duração. No endereço da Angrhamazonica registrado no Ministério da Justiça, em Manaus, funciona uma loja de conserto de aparelhos eletrônicos e de jogos para computador. "Essa Angrhamazonica só existe no papel", diz o gerente da loja, Jacildo Farias. Ele diz ser primo da responsável pela ONG, Nair Queiroz Blair.


Nair está bem longe da Amazônia. Ela é assessora parlamentar da liderança do PDT no Senado, em Brasília, desde 2003. "A sede funcionava lá (em Manaus) até setembro, quando nos transferimos para Brasília", afirma Nair. No Congresso, Nair trabalha numa sala a 300 metros de onde funciona a CPI que a investiga. Ela é conhecida por fazer lobby entre parlamentares para conseguir dinheiro público para sua ONG. "Em novembro, ela me pediu que incluísse emendas ao Orçamento para a Angrhamazonica. Achei estranho e não atendi ao pedido", diz o senador Jefferson Perez (AM), líder do PDT no Senado. Nair nega ter feito o pedido.



A seleção de ONGs para os convênios com o governo,
feita sem critérios objetivos, é brecha para a corrupção.



Casos como o da Angrhamazonica são cada vez mais freqüentes. O jornal O Globo mostrou recentemente como deputados federais do Rio de Janeiro incluíram emendas ao Orçamento de 2008 para beneficiar ONGs ligadas a eles. Um dos exemplos citados é o deputado Manoel Ferreira (PTB-RJ). Ele apresentou emenda ao Orçamento federal para repassar R$ 1 milhão para a ONG Phoenix Auto-Estima, que funciona num escritório dele mesmo e afirma prestar "atendimento psicossocial".


As ONGs nasceram como uma alternativa da sociedade para executar tarefas deixadas de lado pela ineficiência dos governos. Em geral, sobrevivem com dinheiro privado e prestam serviços relevantes. Nos anos 1990, começaram a ser contratadas por governos para executar serviços especializados com mais agilidade. Entre 1999 e 2006, o governo federal destinou R$ 15 bilhões em dinheiro público a mais de 7 mil ONGs. As despesas com essas entidades subiram 71% no primeiro mandato do governo Lula em relação ao último do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.


O que era para ser uma solução virou um problema. De acordo com auditorias realizadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), mais de R$ 10 bilhões em convênios do governo com ONGs deixaram de ser fiscalizados nos últimos anos. As ONGs ainda não prestaram contas de R$ 2 bilhões recebidos do governo. A falta de fiscalização transformou essas entidades em mais um foco de corrupção, segundo o Ministério Público Federal.





É Aqui?
A sede oficial da Angrhamazonica em Manaus, Amazonas.
No local funciona uma loja de equipamentos eletrônicos.




De acordo com o procurador da República do Distrito Federal, Rômulo Conrado, especializado em ONGs, a primeira brecha para a corrupção é a forma de seleção das ONGs. A escolha é feita por funcionários dos ministérios, sem critérios objetivos. "O governo não explica por que destina o dinheiro a uma determinada ONG em detrimento da outra", afirma. Conrado sugere que as ONGs sejam obrigadas a participar de licitações, como qualquer empresa.


No mundo inteiro, as ONGs trabalham para governos. Ao contrário do que acontece no Brasil, sua atuação é fiscalizada. De acordo com um estudo realizado pela universidade americana Johns Hopkins em 35 países, o apoio financeiro do governo representa 34% das receitas dessas organizações. Em locais como Reino Unido, Holanda, Alemanha e França, o governo é o maior financiador das ONGs ligadas à saúde e a serviços sociais. Na República Tcheca há um fundo para repasses a ONGs. Governo e organizações não-governamentais elegem representantes desse fundo, que acompanham os gastos com o dinheiro público.


No mês passado, já deveriam ter sido colocadas em prática regras para o repasse de recursos para ONGs no Brasil. Entre elas, a proibição de que organizações ligadas a políticos e seus parentes recebam dinheiro público. O governo adiou a aplicação das novas normas por seis meses por "incapacidade técnica" para implantar o novo modelo. "É uma esculhambação. O governo adiou porque não quer controle em ano eleitoral", diz o presidente da CPI das ONGs, Raimundo Colombo (DEM-SC).





Fonte: CPI das ONGs



De acordo com ele, as investigações da CPI avançaram pouco até agora porque parlamentares da base governista travaram pedidos de quebra de sigilo bancário e telefônico que envolviam suspeitos, entre eles, Jorge Lorenzetti, amigo do presidente Lula. Lorenzetti estava envolvido no escândalo da compra de um falso dossiê contra candidatos do PSDB nas eleições de 2006. Ele também é investigado pela CPI por suspeita de envolvimento no desvio de R$ 18 milhões de dinheiro público pela ONG Unitrabalho.








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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Pílula da Discórdia



Pílula da Discórdia
Daniel Pinheiro - Revista Carta Capital nº 481 de 06/02/2008
http://www.cartacapital.com.br/481/pilula-da-discordia


Distribuição do contraceptivo de emergência causa polêmica entre Igreja Católica e Ministério da Saúde.


A decisão da Secretaria Municipal de Saúde do Recife, de disponibilizar a pílula do dia seguinte durante o carnaval, causou mais que polêmica. A Diocese de Recife e Olinda entrou com ação no Ministério Público de Pernambuco para suspender o procedimento, na segunda-feira 28, por considerar o medicamento "abortivo", e, portanto, ilegal. No entanto, o MP indeferiu o pedido na terça-feira 29, ao afirmar ter provas suficientes de que o contraceptivo não causa aborto.


A iniciativa provocou comentários de José Gomes Temporão, ministro da Saúde, contra a atitude do arcebispo José Cardoso Sobrinho, dizendo que a Igreja Católica, desta maneira, se afasta dos jovens. O arcebispo, que havia dito que a disponibilização era "criminosa e imoral", rebateu o ministro, afirmando que a questão também é religiosa.


CartaCapital ouviu o ministro Temporão. Confira a íntegra da entrevista.




CartaCapital: Qual é a sua opinião pela polêmica causada pelo pedido de suspensão do fornecimento de pílulas do dia seguinte feito pela Pastoral da Saúde da Arquidiocese de Olinda e Recife?

José Gomes Temporão: Esta é uma polêmica que volta à baila de quando em quando. O Ministério da Saúde defende a utilização do preservativo como combate principalmente às doenças sexualmente transmissíveis, mas também como método contraceptivo. E a pílula do dia seguinte é um método que complementa esse método contraceptivo, caso a usuária tenha a consciência de que outros métodos falharam. Eu acho negativo que a Igreja Católica promova uma interferência em uma iniciativa de saúde pública respaldada pelo ministério da Saúde, pela OMS (Organização Mundial da Saúde, órgão veiculado à ONI para questões de Saúde), por pregar a abstinência antes do casamento e o sexo apenas dentro do matrimônio e com fins reprodutivos. Mas este é um dogma de uma religião, que quer estender a sua crença a todos os indivíduos, e não apenas a seus fiéis, como deveria ser. É uma ação que tem prevista a distribuição de 20 milhões de preservativos durante o Carnaval no País inteiro, o dobro do ano passado, dentro dos 600 milhões previstos para distribuição ao longo do ano. Quanto à iniciativa de Olinda e Recife, essa foi uma decisão da Secretaria de Saúde, que verificou por meio de estudos que a gravidez indesejada aumenta de modo considerável durante as festas e tomou uma decisão que diz respeito à saúde pública, e não a dogmas e crenças. Decisão essa que está em acordo com as políticas de direitos sexuais e de reprodução determinadas pelo Ministério da Saúde. Vale lembrar que a concessão da pílula do dia seguinte só pode ser feita após a mulher que praticou ato sexual e não tem certeza do funcionamento de outros métodos de concepção passar por médico que vai receitar a pílula e só assim ela pode retirar o medicamento em uma farmácia específica. Mais uma vez, há que se dizer que a iniciativa da Igreja Católica é extremamente conservadora em relação ao sexo, o que é um disparate nos dias atuais.



CC: Há uma outra entidade que pediu a suspensão da distribuição de pílulas do dia seguinte em Recife, Olinda e Paulista, em Pernambuco, alegando que é um medicamento abortivo e com muitas contra-indicações.

JGT: O juiz também rejeitou o pedido desta entidade. Por quê? Porque existem centenas de estudos científicos mostrando e comprovando que a pílula do dia seguinte não é um método abortivo. Pelo contrário, ela atua impedindo a fecundação, impedindo o encontro do óvulo com o espermatozóide. Então, não sendo um método abortivo, ele está totalmente dentro do que do que é defendido em publicações oficiais e políticas oficiais do Ministério da Saúde, do Conselho Federal de Medicina e da Academia Nacional de Medicina.



CC: Há uma confusão entre a distribuição, como acontece com os preservativos, e a disponibilização, que é o caso da pílula do dia seguinte?

JGT: Exatamente, exatamente. Este é o equívoco. O Ministério está distribuindo um medicamento de uso muito específico. A pílula do dia seguinte é fornecida de maneira específica e seletiva, por prescrição de um médico. É uma situação completamente distinta.



CC: Qual é a sua opinião sobre essa interferência da Igreja Católica em uma iniciativa de saúde pública?

JGT: Eu acho que tem uma questão central aí, que eu considero que é um abuso, que é a tentativa de estender para toda sociedade um dogma que é específico de uma determinada religião. É razoável que uma determinada religião exija de seus fiéis um comportamento compatível com seus dogmas. Aí os fiéis vão seguir esse padrão de comportamento ou não. Agora querer que toda a sociedade siga esse dogma, e mais, querer interferir numa conduta médica, isso é o mais grave. É como se o bispo quisesse estar assumindo o lugar do médico e arbitrar quem deve ter acesso a um determinado medicamento ou não, baseado em critérios absolutamente leigos. Em critérios que quem acredita, acredita. E quem não acredita tem o direito de não acreditar. E principalmente, chamar a atenção, porque a Igreja se separou do Estado brasileiro há muito tempo, não é? Mas parece que tem gente que insiste em querer submeter a vontade do Estado e da população a padrões filosóficos, morais e religiosos de determinados setores e de determinadas crenças. Isso é inadmissível nos dias de hoje.



CC: A disponibilização de pílulas do dia seguinte é uma iniciativa contra a vida, como alegam as ações sugeridas pela Pastoral da Saúde da Arquidiocese de Olinda e Recife e pela Associação de Defesa dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde?

JGT: Pelo contrário. Como não há concepção, não há fertilização, não há aborto. E no caso do método anticoncepcional, pelo contrário, o uso da camisinha garante a vida e impede a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a Aids, que é uma doença que mata. Existem 200 mil brasileiros no País em tratamento desta doença e 600 mil brasileiros são portadores do vírus. Então, nós temos uma epidemia, sob controle, mas a questão da informação, da educação e do acesso aos métodos de prevenção são fundamentais. Defender o contrário disso, aí sim, é defender a morte. Querer que as pessoas morram sem proteção, isso não é possível no Brasil dos dias de hoje.






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domingo, 3 de fevereiro de 2008

Comer Virou uma Religião



Comer virou uma religião
Suzane Frutuoso - Revista Época - nº 504 de de 14/01/2008

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81030-9556-504,00.html


O sociólogo diz que as pessoas sentem cada vez mais culpa pelas refeições, em vez de prazer.


O americano Barry Glassner, autor do livro "Os Segredos da Alimentação Saudável" (editora Larousse), lançado em dezembro no Brasil, é um crítico da cultura alimentar contemporânea. Segundo ele, a fixação por alimentos saudáveis rouba o prazer de uma boa refeição. Glassner não tem qualquer vínculo com o universo da nutrição. Como sociólogo, estuda o medo. Ao perceber que muitas pessoas desenvolvem um pavor desproporcional em relação a alguns alimentos, decidiu refletir sobre o assunto. Para isso, entrevistou chefs, nutricionistas, psicólogos, jornalistas e representantes da indústria de alimentos.



Barry Glassner


Revista Época – Por que o senhor afirma que comer hoje é “uma religião”?

Barry Glassner – Historicamente, todas as sociedades construíram preferências e também proibições em relação à comida. Em geral, elas tinham a ver com ensinamentos religiosos. Por exemplo, a proibição da carne de porco tanto no islamismo quanto no judaísmo. No catolicismo, há a exigência do peixe na Sexta-Feira Santa. Nos dias de hoje, apesar de as cobranças das religiões sobre alimentação terem menos importância, um grande número de pessoas come como se seguisse uma religião. Temos rituais no preparo dos alimentos, no modo como comemos. Restaurantes são como templos e conferem status. Imaginamos que alimentos naturais serão especiais para nós de alguma maneira.



RE – Mas buscar uma alimentação saudável, para melhorar a qualidade de vida, não é importante?

Glassner – Sim. Sou a favor de uma alimentação saudável. Devemos ter uma dieta o mais equilibrada possível. Não significa idealizar certos tipos de comida. Por exemplo, comidas com altos teores de gordura são desconsideradas. A indústria criou os alimentos light. Mas a gordura é fonte de energia e também ajuda na absorção de uma série de nutrientes.



RE – O senhor diz que essa busca pela comida saudável se tornou um exagero. Mas o que vemos é o crescimento da obesidade no mundo todo...

Glassner – As explicações sobre a epidemia de obesidade são muito simplistas. As razões para o grande número de obesos não estão claras. A culpa é jogada nas cadeias de fast-food. Olhando cuidadosamente para as evidências, essa explicação não se sustenta. Nos Estados Unidos, dizem que a obesidade cresceu na mesma proporção que a indústria do fast-food ganhou força. Mas não é verdade.



RE – Não?

Glassner – Não mesmo. Nos anos 70, o McDonald’s chegou a 10 mil restaurantes só nos EUA. Outras cadeias de fast-food surgiram e cresceram também. Mas naquela época a epidemia de obesidade não aparecia. Uma verdade óbvia é que as pessoas estão mais gordas porque comem demais. Mais do que precisam. Mas também há pessoas obesas que não comem muito. Como explicar isso? E outras que comem muito e são magras. Temos de olhar para as respostas da ciência, como casos de hereditariedade. E os hábitos das pessoas, como comer muito e não se exercitar.



RE – É possível comer com prazer e ao mesmo tempo combater fatores de risco cardiovasculares como obesidade, diabetes, hipertensão, colesterol alto?

Glassner – É claro que existem pessoas com problemas específicos de saúde e que precisam de dietas especiais. Esse é o caminho para que tenham qualidade de vida, e não há muito o que mudar. Há restrições. Mas a maioria das pessoas que vão atrás de dietas especiais não se encaixa nessas condições de saúde que requerem mais cuidados. Elas querem apenas ser magras ou acreditam que comendo de uma forma específica vão viver mais. Por exemplo, alguém que sofre de diabetes não pode ingerir açúcar. Mas quem não tem, por que deixa o açúcar? Porque essa pessoa acredita que será melhor, quando na verdade pode até fazer falta dentro de sua dieta geral. Torna-se insuportável viver assim. A pessoa perde o prazer de se alimentar com o que gosta e enxerga a comida como algo negativo. Emocionalmente, não é saudável.



RE – O senhor não acha que comida gordurosa é um perigo?

Glassner – Ingerir em excesso alimentos com gordura é ruim para a saúde. Comer brócolis em todas as refeições também não faz bem. Qualquer coisa que se coma além da conta não terá um efeito positivo. Quero deixar claro que o ruim é focar uma pequena variedade de comida. E também se exceder no consumo dessa pequena variedade. Isso traz debilidades para o corpo.



RE – Qual é o povo que mais comete erros na hora de se alimentar?

Glassner – O americano é o pior. Os ingleses também. Esses povos consomem gordura trans demais, a mais artificial e prejudicial. Por outro lado, também consomem em excesso os alimentos livres de qualquer tipo de gordura, os light e diet. E ainda fazem refeições rápidas demais ou pulam refeições. As pessoas esquecem que, se não aproveitam e não sentem prazer durante as refeições, não alcançam reais benefícios para a saúde.


Ingerir em excesso alimentos com gordura é ruim para a saúde.

Comer brócolis em todas as refeições também não faz bem.



RE – O senhor diz que os nutrientes são mais bem absorvidos quando a pessoa come com prazer. Pode dar um exemplo?

Glassner – Um de meus estudos favoritos é o que compara mulheres da Suécia e da Tailândia e a reação delas ao comer um mesmo prato tailandês. As suecas acharam muito condimentado, enquanto as tailandesas absorveram muito mais ferro durante a refeição. Quando a pesquisa foi invertida, serviram-se hambúrguer, batatas e amendoins. Nesse caso, as suecas absorveram uma quantidade de ferro maior. As mulheres absorveram melhor os nutrientes de acordo com o prato que mais lhes agradava.



RE – Qual país é bom exemplo em alimentação?

Glassner – O exemplo famoso é a França. A tradição alimentar do país, de comer devagar e comer coisas de que gostam, é um orgulho para os franceses. Nada de produtos light. Eles comem manteiga, pães, doces... tudo o que os americanos dizem que é prejudicial. Mas as taxas de mortalidade por ataque cardíaco são próximas nos dois países.



RE – O que é uma boa refeição? Como ela pode ser prazerosa e saudável?

Glassner – O que importa é manter pelo menos duas das refeições diárias balanceadas, consumindo uma boa quantidade de frutas, legumes e verduras. As pessoas precisam gostar do que comem.



RE – Posso comer um pedaço de bolo de chocolate todo dia?

Glassner – Se você comer bolo de chocolate todo dia, será um exagero. Moderação é importante. Não coma bolo de chocolate todo dia.



RE – O que é o “evangelho da carência”, que o senhor cita no livro?

Glassner – É o hábito que as pessoas criaram de se submeter a essa visão de não comer de tudo, achando que será bom para a saúde. Elas criam carências nutricionais. Tiram da dieta várias substâncias, mesmo sem necessidade, como açúcar, carboidratos, gorduras. Acaba não sobrando quase nada. É uma estranha noção de que, quanto menos você ingerir, melhor será sua refeição. É uma loucura acreditar que o que faz uma refeição ótima é o que ela não tem.



RE – Quem é o atual vilão da alimentação? E qual vilão foi inocentado?

Glassner – Muda o tempo todo. Hoje, os vilões são alimentos com alto teor de gordura e carboidratos (pães, massas). O problema é que é muito difícil conseguir uma dieta saudável e prazerosa sem esse tipo de comida. É gostoso e ajuda o organismo a funcionar bem. Um bom exemplo de ex-vilão é o ovo. Há 20 anos, o ovo era demonizado por causa do alto colesterol. Hoje, os ovos são considerados um grande alimento porque têm muitos nutrientes e podem ser preparados e combinados em diferentes pratos.



RE – O que leva em consideração na hora em que escolhe uma refeição?

Glassner – A qualidade da comida, o quanto vou aproveitar o prato e o que mais comi durante o dia. Por exemplo, à noite sei que vou jantar peixe – que adoro. Então, não vou almoçar peixe. Escolho outro alimento para comer um pouco de tudo.



RE – O senhor já fez dieta? Corta alguma coisa do cardápio?

Glassner – Não. Nunca. E vejo a dieta como um paradoxo. As pessoas seguem dietas para emagrecer. Mas acabam ganhando peso novamente. Às vezes, até mais. Estudos mostram que pessoas que freqüentemente fazem dieta acabam engordando de novo. Dietas funcionam por um curto período.



RE – Então, seu conselho é “coma o que quiser”?

Glassner – Não. Se você comer excessivamente, não vai se sentir bem depois. Coma suas comidas favoritas, mas em pequenas quantidades. O maior erro que as pessoas cometem é comer grandes quantidades de poucos itens. Aí não agüentam nem comer os pratos que mais gostam.





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domingo, 27 de janeiro de 2008

A Fragilidade do Homem

A Fragilidade do Homem
Revista Época nº 506 de 28/01/2008
André Fontenelle, Cristiane Segatto e Sezane Frutuoso
Fotos - Michael Marlin, André Valentin, Frederic Jean e Márcia Lourenção
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81341-8055-506,00.html

O caso de Nenê, o jogador de basquete que enfrenta um câncer de testículo,
chama a atenção para o preconceito que dificulta a prevenção desse tipo de doença.

Sobrevivente
Nenê com o uniforme do Denver Nuggets.
A descoberta precoce - e acidental - do câncer provavelmente salvou sua vida.

Na sexta-feira 11, horas antes da partida entre o Denver Nuggets e o Orlando Magic, o site da NBA a liga profissional de basquete dos Estados Unidos, publicou uma lacônica mensagem em inglês sobre o jogador brasileiro Nenê, do Denver. "Nenê Hilário tirou uma licença por tempo indefinido, por razões médicas pessoais. Sua equipe informou que, em respeito à privacidade e ao desejo de Nenê, divulgará maiores informações quando disponíveis." A formulação misteriosa do texto desencadeou uma série de rumores.

Nenê, de 25 anos, cujo nome completo é Maybyner Rodney Hilário (o "Maybyner" é uma seqüência de letras aleatórias escolhidas pelos pais), é um dos atletas brasileiros mais bem pagos. Descoberto por um olheiro da NBA em 2001, quando disputava um torneio pela seleção brasileira, Nenê chegou a Denver em 2002. Seu potencial até hoje não foi totalmente realizado, em parte devido a seguidas lesões. Mesmo assim, em 2006, ele assinou um contrato de seis anos e US$ 60 milhões com o Denver.

Nos últimos anos, o nome de Nenê tem sido presença constante na lista de jogadores machucados da NBA, mas desta vez o tom da nota indicava um problema bem mais grave. Um comunicado com declarações de Nenê só atiçou a boataria. "Estou bastante chateado porque terei de adiar minha estadia com o time para cuidar da minha saúde. É difícil seguir em frente quando as coisas parecem ir tão bem... Quero voltar à quadra o mais rápido possível para ajudar meus companheiros. Eu e minha família pedimos respeito a nossa privacidade", dizia Nenê.

Fãs de basquete começaram a discutir o caso nos fóruns da internet. Falou-se em aids, aneurisma e câncer. Alguns mataram a charada de imediato - era um tumor testicular -, mas a notícia só foi confirmada na terça-feira 15. O "respeito à privacidade" pedido por Nenê seria devido a um mal tão perigoso quanto o câncer - a vergonha. Milhares de casos de câncer em homens, no pênis, nos testículos ou na próstata, deixam de ser detectados e tratados no estágio inicial, quando a chance de cura é mais alta, devido ao preconceito. "A prevenção só vai se disseminar se os homens que tiverem a doença contarem e aconselharem", diz o jornalista Leão Serva, um sobrevivente de câncer de testículo (leia seu depoimento mais abaixo).

Nenê teve sorte, pois seu tumor foi detectado em estágio inicial. Foi informado do problema dois dias antes do anúncio na internet. Um exame antidoping de rotina, feito por seu time, havia detectado a presença anormal do hormônio beta-hCG na urina do jogador. Em mulheres, o hCG é um indicador de gravidez; em homens, é um forte marcador da presença de um tumor.


Vitoriosos

Boggis superou o câncer de próstata



Colovati o de testículo





Santos o de pênis


Ciente do risco, Nenê teve a sorte de conhecer um especialista em quem confiava: o urologista Fernando Jung Won Kim, de 42 anos, um brasileiro que, por coincidência, trabalha em Denver, onde leciona na Universidade do Colorado e chefia o serviço de urologia do Denver Health Medical Center. Nascido na Coréia do Sul, Kim emigrou com os pais, empresários da indústria têxtil, quando tinha 1 ano, primeiro para a Argentina e depois para o Brasil - onde, aos 5 anos, ganhou o nome de Fernando. Formado pela Universidade de São Paulo, Kim fez brilhante carreira médica nos Estados Unidos.

Kim, por acaso, já era um dos melhores amigos de Nenê em Denver. Conheciam-se por intermédio do sogro do médico, dirigente de basquete. Nenê costuma comer pizza aos domingos na casa dos Kims e havia passado com eles o último Natal. O telefone de Kim tocou à noite. "Estou com um problema, você pode me ajudar?", perguntou Nenê. Kim recomendou aguardar novos exames. Quando eles confirmaram a presença de um tumor no testículo direito, Nenê foi ao consultório de Kim, que explicou: provavelmente o tumor era maligno - é assim em quase todos os casos - e seria preciso retirar o testículo direito. A operação não podia tardar, pois células cancerosas já poderiam ter se espalhado pelo corpo, o que é conhecido como metástase.

Na segunda-feira 14, Nenê deu entrada no Denver Health Medical Center. Kim optou por anestesia geral. A orquiectomia radical (nome técnico da cirurgia) é um procedimento simples, mas delicado. Uma incisão é feita na virilha, por onde o testículo é cuidadosamente retirado - apertá-lo pode espalhar células cancerosas.

A operação foi um sucesso. Exames de sangue e tomografias dos pulmões, do abdome e da pelve não encontraram indício de metástase. O tumor, de cerca de 1,5 centímetro de diâmetro, era, como se esperava, maligno. Inicialmente a assessoria de Nenê divulgou que o tumor era benigno. Retirada horas depois do site do jogador, a informação estava errada. Na segunda-feira 21, em entrevista a ÉPOCA, Fernando Kim esclareceu que o tumor era mesmo maligno. Mas deu uma boa notícia: como não houve metástase, Nenê tem quase 100% de chance de não voltar a ter câncer. Pelos próximos dez anos ele terá de fazer exames periódicos para monitorar uma possível recorrência do câncer.

Se o diagnóstico favorável se confirmar, Nenê entrará para uma lista de atletas famosos que sobreviveram ao câncer. O mais famoso deles é o ex-ciclista americano Lance Armstrong. Em 1996, aos 25 anos, Armstrong descobriu que tinha um câncer testicular, com metástase no cérebro e nos pulmões. Submetido a uma orquiectomia, a cirurgias no cérebro e a uma pesada quimioterapia, o ciclista recuperou-se inteiramente. Voltou a pedalar e, entre 1999 e 2005, ganhou sete vezes consecutivas a Volta da França, um dos maiores feitos da história do esporte. Apesar das freqüentes acusações de doping - há quem diga até que seu câncer tinha relação com o uso de substâncias proibidas -, Armstrong se tornou um popular ativista da luta pelo apoio às vítimas de câncer. Foram vendidos 70 milhões de cópias da pulseira amarela Livestrong (literalmente, "viva forte", um trocadilho com seu nome), símbolo da campanha. "O câncer me ensinou a ter objetivos", disse Armstrong.

Apesar da alta taxa de cura do câncer de testículo, a descoberta da doença e o tratamento podem abalar a sexualidade masculina. O tratamento-padrão envolve a remoção cirúrgica de todo o testículo, quimioterapia e radioterapia. "Em alguns casos em que o tumor é pequeno e descoberto precocemente, apenas a cirurgia pode ser suficiente", diz o médico Gustavo Cardoso Guimarães, do departamento de cirurgia pélvica do Hospital A.C. Camargo, antigo Hospital do Câncer, em São Paulo. No caso de Nenê, o tipo de tratamento ainda depende do resultado de novos exames.

A retirada de somente um dos testículos, como ocorreu com Nenê, nem sempre provoca infertilidade. A quimioterapia e a radioterapia podem provocá-la, sobretudo em pacientes que já produzem poucos espermatozóides antes da operação. Por isso, muitos pacientes que desejam ter filhos congelam esperma antes do tratamento. Fernando Kim não informou se Nenê optou pelo congelamento de esperma.

Quando o tumor extrapola a região do testículo e atinge áreas próximas, a cirurgia pode comprometer nervos responsáveis pela ejaculação. O homem tem ereção, mas o esperma não é expelido. Foi o que aconteceu com Fabrício Colovati, um supervisor de logística de 26 anos. Em 2003, seu testículo esquerdo começou a doer e a inchar. Tumor detectado, Fabrício sentiu confiança no cirurgião e decidiu não perder tempo. Foi operado uma semana depois. Optou-se por não fazer uma quimioterapia preventiva. Seis meses depois, no entanto, um novo tumor surgiu e invadiu uma região muito maior, chegando a comprometer um dos rins. A cirurgia foi muito mais complicada. Fabrício fez quimioterapia. Há quase cinco anos está sem sinais da doença. "Nunca achei que minha masculinidade seria atingida. Isso ficou bem resolvido na minha cabeça. Só fiquei triste por não poder engravidar minha mulher naturalmente", diz. Evangélico, Fabrício diz ter se casado virgem há seis meses. "Minha religião me ajudou muito a superar o problema".

Felizmente, o câncer de testículo é bastante raro. No Brasil, estima-se que existam de três a cinco casos anuais para cada 100 mil homens. Mas ele costuma acometer homens jovens, entre 15 e 35 anos. Muitas vezes, a demora em procurar atendimento faz com que os homens percam a chance de se salvar e viver com menos seqüelas. "Mulheres jovens vão ao ginecologista regularmente desde a adolescência. Rapazes não vão ao urologista", diz o médico Gustavo Guimarães. "Mesmo quando percebem algo estranho, eles têm vergonha de falar no assunto." Esse é o maior erro.

A principal causa da doença é a criptorquidia (quando o testículo não desce corretamente da cavidade abdominal onde se desenvolve durante a vida uterina). Outros fatores de risco são atrofia testicular, antecedente familiar e infecção pelo vírus da aids. Fazer o auto-exame, ou seja, apalpar os testículos regularmente à procura de anormalidades, é a melhor forma de evitar a escalada da doença (veja o quadro abaixo).

Um baque ainda maior na sexualidade masculina é provocado pelo câncer de pênis, considerado uma das vergonhas da saúde pública nacional. O Brasil é um dos campeões mundiais desse tipo de câncer, com uma taxa entre 2,9 e 6,8 casos por 100 mil. A razão: falta de higiene, decorrente da pobreza e da baixa instrução.

Evitar a principal causa de câncer de pênis é muito fácil. Basta lavar o órgão diariamente. O tumor é causado pelo acúmulo de bactérias na glande. A higienização é mais difícil nos homens que sofrem de fimose (constrição ou rigidez do prepúcio, a pele que recobre a glande). Nesses casos, a circuncisão resolve o problema e evita o câncer - razão pela qual a doença é praticamente inexistente entre os judeus, que circuncidam os recém-nascidos.

Como os sinais iniciais do câncer de pênis se assemelham a uma doença venérea, muitos homens acham que basta tomar qualquer antibiótico. A doença avança e a amputação parcial ou total torna-se a única saída. No Hospital do Câncer de Pernambuco, ocorrem em média quatro amputações de pênis por mês, segundo o médico Artur Lício Rocha Bezerra.

O funileiro cearense José Maria dos Santos, de 53 anos, morador de São Paulo, teve de enfrentar a perda de parte do pênis. Nunca tinha ouvido falar na doença e não desconfiou de nada quando percebeu os primeiros sinais. "Apareceu uma ferida que ardia demais quando eu fazia xixi", diz. A cirurgia parece ter resolvido o problema e deixado poucas seqüelas. "Fiquei só dois meses sem relação sexual depois da cirurgia. Sou o mesmo de antes".



Os três pesadelos masculinos


Os tumores de próstata, testículo e pênis ameaçam a vida sexual do homem.Quando o diagnóstico é precoce, as seqüelas são reduzidas e a chance de cura é altíssima.

O câncer masculino mais comum, o de próstata (52 casos para cada 100 mil brasileiros), é uma das principais ameaças dos homens de meia-idade. A melhor forma de combatê-lo é o diagnóstico precoce. A partir dos 50 anos, todos os homens devem fazer anualmente o exame de toque retal no consultório do urologista. Um exame de sangue também pode revelar alterações nos níveis do antígeno prostático específico (PSA), um marcador da presença do câncer.


A chance de cura quando o tumor está restrito à próstata é superior a 80%. Quando a doença já invadiu outras estruturas, porém, a cura é muito difícil. O executivo carioca Roberto Ian Boggis, de 56 anos, agiu rápido. Assim que os exames revelaram um tumor de 3 milímetros, ele decidiu submeter-se à extração da próstata. A recuperação não foi fácil. Boggis teve de fazer fisioterapia para evitar a incontinência urinária. "Imagine o que é isso para a auto-estima de um homem", diz. Boggis afirma que hoje está recuperado e a vida sexual voltou ao normal. "Não ejaculo, mas não ligo. Agora também posso fingir orgasmo", diz, brincalhão. Assumir que o corpo não vai bem e superar a vergonha de ir ao médico é fundamental para que os homens possam viver mais e melhor.





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O médico me pediu: "Se puder, fale sobre o assunto"Leão Serva - Revista Época nº 506 de 28/01/2008
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81365-5856-506,00.htm



Leão Serva



Ao saber que tinha câncer de testículo, entre outros mil sentimentos e reações, eu perguntei ao médico Omar Al-Hayek: "O que vou dizer para as pessoas que eu tive?".

- Se você puder e sentir, diga a verdade. Falar sobre o assunto tem uma função didática.

O câncer de testículo é um tabu no Brasil. É até natural: quando pequeno, há uns 40 anos, as pessoas não falavam nem mesmo os nomes das doenças mais graves. Diziam "TB", para tuberculose; "CA", para câncer. Mas em um mundo tão mudado, em que mulheres mostram como apalpar os seios, no auto-exame, em horário nobre da TV, não há como negar que o câncer de testículo padeça de um efeito machista, típico de sociedades latinas.

Eu tive muita sorte: ao morar por um tempo na Inglaterra, fomos instruídos pelo médico de família sobre cuidados gerais com a saúde. Minha mulher recebeu material sobre câncer no seio; eu, sobre câncer de testículo. Até então, já com mais de trinta anos, nunca tinha ouvido dessa doença.


Passei a fazer o auto-exame regularmente. Nem mesmo dei ouvidos ao médico que um dia, em torno dos 40 anos, me contou que eu já tinha deixado a fase de risco da doença (que atinge mais homens de até 35 anos).

Um dia, aos 44 anos, detectei uma coisa muito estranha, um testículo duro, não diria dolorido mas incômodo.


Não tenho dúvida de que o diagnóstico é facílimo, pois o urologista que me examinou levou menos de 30 segundos para dizer que devia ser câncer, que iria fazer pedir um ultrassom só para rechecar e afastar outras possibilidades, que mesmo assim achava "improvável". O médico de ultrassom, ao ver a imagem na tela, também não teve qualquer dúvida, só por cuidado ético me disse que quem diria com certeza o diagnóstico seria o urologista.

Ainda assim tive uma reação defensiva quando o urologista me ligou para dizer que era um câncer, que não tinha dúvida e que eu deveria me internar naquela mesma noite para retirar o testículo no dia seguinte.

Pedi para postergar tudo, tinha que deglutir toda a história. Ao que ele me disse: "A cirurgia é muito simples e controlada. Mas o câncer dobra de tamanho a cada semana. E faz uma semana que você o encontrou".

Não fui naquela noite, mas no dia seguinte, já resignado em perder um testículo e morrendo de medo da biópsia "a céu aberto" que é feita no outro, durante a cirurgia. Se detectado um traço de câncer, o outro também seria retirado. Eu acordaria, simplesmente, sem testículos...

Mas por sorte isso não aconteceu.

Levei quase um mês para voltar a andar normalmente. Por muito tempo ainda sentia que tinha tomado "uma bolada no saco". O abdome dói e a consciência treme: há muitos fantasmas associados ao câncer, ao câncer de testículo: a) a doença vai voltar? b) vou ficar impotente? c) vou ficar estéril? d) se a doença voltar, vou morrer? e) vou ter uma metástase? f) vou voltar a correr? g) a doença pode dar no outro testículo?


E a pior de todas as dúvidas: porque tive câncer? Foi castigo; tratei mal de minha saúde?

Para todos os fantasmas há respostas que acalmam mais os outros do que as vítimas. Mas em resumo: trata-se de uma doença muito letal no passado, que passou a ser curável por uma quimioterapia à base de prata descoberta poucas décadas atrás. Hoje só morre dessa doença quem a descobrir muito tarde. O tratamento com quimioterapia pode gerar esterilidade, mas não a impotência e certamente cura quase a totalidade dos casos de metástase. A chance de reincidência é relativamente maior dependendo do momento em que o câncer for descoberto: o americano Lance Armstrong, um dos maiores atletas da atualidade, só descobriu o seu quando já tinha metástase no pulmão e no cérebro. Mesmo assim, está vivo, saudável e ganhou 7 vezes a Volta da França, a maior prova de ciclismo do mundo. O câncer de um testículo não evolui para o outro; a possibilidade de ele contaminar outras áreas do corpo, nos casos muito graves, segue um roteiro exato: primeiro o abdome; depois o pulmão e só então o cérebro. Um médico catedrático da USP, já aposentado, me disse que em sua longa carreira nunca viu um ponto de metástase "pular" a ordem e nem soube de registros médicos dessa ocorrência.

E por que surgiu um câncer? Ninguém sabe dizer ao certo.

Em seu livro "It´s not about the bike" (não é sobre bicicleta) sobre sua luta contra o câncer, Armstrong conta uma passagem que talvez explique um possível constrangimento de um jovem como Nenê diante de um câncer de testículo. É quando sua namorada comenta com um ex que está namorando Armstrong, vítima da doença. O outro homem diz a ela que está amando um "meio homem" (Armstrong pensa em ir bater no outro, mas se conteve).


O estigma de "meia masculinidade" é uma bobagem. Basta lembrar aquela aula de ginásio em que aprendemos que todos os órgãos duplos do corpo são capazes de dar conta do serviço completo. Se um rim não funciona, o outro dá conta do recado. O mesmo vale para o pulmão, para a vista, o ouvido e, também para as funções hormonais e reprodutivas do testículo. Mesmo em um raríssimo caso de pessoa que tenha tido que retirar os dois, a reposição hormonal permite uma vida sexual normal.

O grande problema da doença no Brasil em relação aos países do chamado Primeiro Mundo é realmente a prevenção, o diagnóstico precoce. Que só vai se disseminar se os homens que tiverem a doença contarem e aconselharem. Daí porque meu médico ter pedido que eu usasse da palavra para falar as outros homens. Como também deve ter pedido o médico de Lance Armstrong (que criou uma fundação), de Luis Gushiken e de tantos outros homens em todo o mundo.




quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Gelatina ajuda a prevenir doenças - É Doce e Faz Bem



É Doce e Faz Bem

Andréa Guedes - Boletim Maisde50 - 23/01/2008
http://www.maisde50.com.br/print_artigo.asp?id=6665


Gelatina ajuda a prevenir doenças, dizem estudos.


Difícil encontrar quem ainda não tenha experimentado. Rápida e fácil de fazer, a gelatina tem predicados que vão além da praticidade e da variedade de cores, formatos e sabores. A defesa vem da ala médica: a sobremesa auxilia na prevenção de determinadas doenças. E para quem insiste em empanturrar apenas as crianças com a guloseima, um aviso: ela é recomendada para todas as idades, sobretudo, para os idosos.

A lista de benefícios inclui o fortalecimento de unhas, cabelos e ossos, e boa atuação nos processos inflamatórios das articulações. De acordo com o professor do Departamento de Alimentos e Nutrição da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, Valdemiro Sgarbieri, a gelatina, oriunda da pele do boi e do porco, é uma proteína diferente das outras, porque contém um aminoácido chamado hidroxiprolina. Essa proteína possui a mesma composição do colágeno, presente na formação de ossos, pele, cabelos, unhas, cartilagens e do tecido conjuntivo.


O processo de envelhecimento, ressalta o professor da Unicamp, implica em diversas alterações no corpo: pele, cabelos, ossos e articulações são afetados. E grande parte dessas transformações ocorre devido à perda de colágeno, que atua na estrutura desses tecidos.


É aí que a gelatina entra em ação, pois ajuda a repor essa diminuição. "No processo de envelhecimento, a gelatina vai auxiliar a retardar o aparecimento de males como a artrose, a artrite e a osteoporose, enfermidades características de idosos", salienta Valdemiro Sgarbieri.


De olho nesses consumidores em potencial e cientes dos efeitos benéficos da gelatina, os fabricantes têm lançado no mercado fórmulas especiais, nas quais acrescentam-se vitaminas C e D, e outros componentes que ajudam na restauração dos tecidos. Segundo Valdemiro, além da gelatina original, com sabor e servida gelada, existe também a hidrolizada, que por ser solúvel em água, é absorvida mais facilmente pelo organismo. "Em forma de pó, esse tipo pode ser adicionado em sucos e outros líquidos. O sabor é tolerável, e é possível acrescentar aromatizantes", explica.


Como não contém gordura, carboidrato ou colesterol em sua composição, a gelatina bastante utilizada em dietas de emagrecimento. Como não há restrições, ela pode ser consumida todos os dias. "O colágeno é muito importante em qualquer faixa etária, e a gelatina é a melhor fonte", conclui o professor. Mas ninguém precisa exagerar nas porções.







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