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domingo, 22 de abril de 2012

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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Viver entre os 1%



 
Viver entre os 1%
Carta Maior - Michael Moore - 19/04/2012
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18864



Quando se é trabalhador, de família de trabalhadores, todos cuidam de todos, e quando um se dá bem, ou outros vibram de orgulho – não só pelo que conseguiu ter sucesso, mas porque, de algum modo, um de nós venceu, derrotou o sistema brutal contra todos, que comanda um jogo cujas regras são distorcidas contra nós. Nós conhecíamos as regras, e as regras diziam que nós, ratos das fábricas da cidade, nunca conseguíamos fazer cinema, ou aparecer em entrevistas na televisão ou conseguíamos fazer-nos ouvir em palanque nacional. O artigo é de Michael Moore, de 31/10/2011.


Amigos,

Há 22 anos, que se completam nesta terça-feira, estava com um grupo de operários, estudantes e desempregados no centro da cidade onde nasci, Flint, Michigan, para anunciar que o estúdio Warner Bros, de Hollywood, comprara os direitos de distribuição do meu primeiro filme, “Roger & Me”. Um jornalista perguntou: “Por quanto vendeu?”

“Três milhões de dólares” – respondi com orgulho. Houve um grito de admiração, do pessoal dos sindicatos que me cercava. Nunca acontecera, nunca, que alguém da classe trabalhadora de Flint (ou de lugar algum) tivesse recebido tanto dinheiro, a menos que um dos nossos roubasse um banco ou, por sorte, ganhasse o grande prêmio da loteria de Michigan.

Naquele dia ensolarado de novembro de 1989, foi como se eu tivesse ganho o grande prêmio da loteria – e o pessoal com quem eu vivia e lutava em Michigan ficou eufórico com o meu sucesso. Foi como se um de nós, finalmente, tivesse conseguido, tivesse chegado lá, como se a sorte finalmente nos tivesse sorrido. O dia acabou em festa. Quando se é trabalhador, de família de trabalhadores, todos cuidam de todos, e quando um se dá bem, ou outros vibram de orgulho – não só pelo que conseguiu ter sucesso, mas porque, de algum modo, um de nós venceu, derrotou o sistema brutal contra todos, sem mercê, que comanda um jogo cujas regras são distorcidas contra nós.

Nós conhecíamos as regras, e as regras diziam que nós, ratos das fábricas da cidade, nunca conseguíamos fazer cinema, ou aparecer em entrevistas na televisão ou conseguíamos fazer-nos ouvir em palanque nacional. A nossa parte deveria ser ficar de bico calado, cabeça baixa, e voltar ao trabalho. E, como que por milagre, um de nós escapara dali, estava a ser ouvido e visto por milhões de pessoas e estava ‘cheio de massa’ – santa mãe de deus, preparem-se! Um palanque e muito dinheiro... agora, sim, é que os de cima vão ver!

Naquele momento, eu sobrevivia com o subsídio de desemprego, 98 dólares por semana. Saúde pública. O meu carro morrera em abril: sete meses sem carro. Os amigos convidavam-me para jantar e sempre pagavam a conta antes que chegasse à mesa, para me poupar ao vexame de não poder dividi-la.

E então, de repente, lá estava eu montado em três milhões de dólares. O que eu faria do dinheiro? Muitos rapazes de terno e gravata apareceram com montes de sugestões, e logo vi que, quem não tivesse forte sentido de responsabilidade social, seria facilmente arrastado pela via do “eu-eu” e muito rapidamente esqueceria a via do “nós-nós”.

Em 1989, então, tomei decisões fáceis:

1. Primeiro de tudo, pagar todos os meus impostos. Disse ao sujeito que fez a declaração de rendimentos, que não declarasse nenhuma dedução além da hipoteca; e que pagasse todos os impostos federais, estaduais e municipais. Com muita honra, paguei quase um milhão de dólares pelo privilégio de ser norte-americano, cidadão deste grande país.

2. Os 2 milhões que sobraram, decidi dividir pelo padrão que, uma vez, o cantor e ativista Harry Chapin me ensinou, sobre como ele próprio vivia: “Um para mim, um para o companheiro”. Então, peguei metade do dinheiro – e criei uma fundação para distribuir o dinheiro.

3. O milhão que sobrou, foi usado assim: paguei todas as minhas dívidas, algumas que eu devia aos meus melhores amigos e vários parentes; comprei um frigorífico para os meus pais; criei fundos para pagar a universidade das sobrinhas e sobrinhos; ajudei a reconstruir uma igreja de negros destruída num incêndio, lá em Flint; distribuí mil perus no Dia de Ação de Graças; comprei equipamento de filmagem e mandei para o Vietnã (a minha ação pessoal, para reparar parte do mal que fizemos àquele país, que nós destruímos); compro, todos os anos, 10 mil brinquedos, que dou a Toys for Tots no Natal; e comprei para mim uma moto Honda, fabricada nos EUA, e um apartamento hipotecado, em Nova York.

4. O que sobrou, depositei numa conta de poupança simples, que paga juros baixos. Tomei a decisão de jamais comprar ações. Nunca entendi o cassino chamado Bolsa de Valores de Nova York, nem acredito em investir num sistema com o qual não concordo.

5. Sempre entendi que o conceito do dinheiro que gera dinheiro criara uma classe de gente gananciosa, preguiçosa, que nada produz além de miséria e medo para os pobres. Eles inventaram meios de comprar empresas menores, para imediatamente as fechar. Inventaram esquemas para jogar com as poupanças e reformas dos pobres, como se o dinheiro dos outros fosse dinheiro deles. Exigiram que as empresas sempre registassem lucros (o que as empresas só conseguiram porque despediram milhares de trabalhadores e acabaram com os serviços de saúde pública para os que ainda tinham empregos). Decidi que, se ia afinal ‘ganhar a vida’, teria de ganhá-la com o meu trabalho, o meu suor, as minhas ideias, a minha criatividade. Eu produziria produtos tangíveis, algo que pudesse ser partilhado com todos ou de que todos gostassem, como entretenimento, ou do qual pudessem aprender alguma coisa. O meu trabalho, sim, criaria empregos, bons empregos, com salários decentes e todos os benefícios de assistência médica.

Continuei a fazer filmes, a produzir séries de televisão e a escrever livros. Nunca iniciei um projeto pensando “quanto dinheiro posso ganhar com isso?”. Nunca deixei que o dinheiro fosse a força que me fizesse fazer qualquer coisa. Fiz, simplesmente, exatamente o que queria fazer. Essa atitude ajuda a manter honesto o meu trabalho – e, acho, ao mesmo tempo, que resultou em milhões de pessoas que compram bilhetes para assistir aos meus filmes, assistem aos programas que produzo e compram os meus livros.

E isso, precisamente, enlouqueceu a direita. Como é possível que alguém da esquerda tenha tanta audiência no ‘grande público’? Não pode ser! Não era para acontecer (Noam Chomsky, infelizmente, não vai aparecer no Today View de hoje; e Howard Zinn, espantosamente, só chegou à lista dos mais vendidos do New York Times depois de morto). Assim opera a máquina dos meios de comunicação. Está regulada para que ninguém jamais ouça falar dos que, se pudessem, mudariam todo o sistema, para coisa muito melhor. Só liberais sem personalidade, que vivem de exigir cautela e concessões e reformas lentas, aparecem com os nomes impressos nas páginas de editoriais dos jornais ou nos programas da televisão aos domingos.

Eu, de algum modo, encontrei uma brecha na muralha e meti-me por ali. Sinto-me abençoado, podendo viver como vivo – e não ajo como se tudo fosse garantido para sempre. Acredito nas lições que aprendi numa escola católica: que se tens sucesso, maior é a tua responsabilidade por quem não tenha a mesma sorte. “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”. Meio comunista, eu sei, mas a ideia é que a família humana existe para partilhar com justiça as riquezas da terra, para que os filhos de Deus passem por esta vida com menos sofrimento.

Dei-me bem – para autor de documentários, dei-me super bem. Isso, também, faz enlouquecer os conservadores. “Você está rico por causa do capitalismo!” – gritam. Hummm... Não. Não assistiram às aulas de Economia I? O capitalismo é um sistema, um esquema ‘pirâmide’ que explora a vasta maioria, para que uns poucos, no topo, enriqueçam cada vez mais. Ganhei o meu dinheiro à moda antiga, honestamente, fabricando produtos, coisas. Nuns anos, ganho uma montanha de dinheiro, noutros anos, como o ano passado, não tenho trabalho (nada de filme, nada de livro); então, ganho muito menos. “Como é que você diz que defende os pobres, se você é rico, exatamente o contrário de ser pobre”? É o mesmo argumento de quem diz que, “Você nunca fez sexo com outro homem! Como pode ser a favor do casamento entre dois homens"?

Penso como pensava aquele Congresso só de homens que votou a favor do voto para as mulheres, ou como os muitos brancos que foram às ruas, marchar com Martin Luther King, Jr. (E lá vem a direita, aos gritos, ao longo da história: “Hei! Você não é negro! Você nem foi linchado! Por que está a favor dos negros”?). Essa desconexão impede que os Republicanos entendam por que alguém dá o próprio tempo ou o próprio dinheiro para ajudar quem tenha menos sorte. É coisa que o cérebro da direita não consegue processar. “Kanye West ganha milhões! O que está a fazer lá, em Occupy Wall Street”?. Exatamente – lá está, exigindo que aumentem os impostos a ele mesmo. Isso, para a direita, é definição de loucura. Todo o resto do mundo somos muito gratos que gente como ele se tenha levantado, ainda que – e sobretudo porque – é gente que se levantou contra os seus interesses pessoais financeiros. É precisamente a atitude que a Bíblia, que aqueles conservadores tanto exaltam por aí, exige de todos os ricos.

Naquele dia distante, em novembro de 1989, quando vendi o meu primeiro filme, um grande amigo meu disse o seguinte: “Eles cometeram um erro muito grave, ao entregar tanto dinheiro a um sujeito como tu. Essa massa fará de ti um homem perigosíssimo. É prova do acerto do velho dito popular: ‘Capitalista é o sujeito que te vende a corda para se enforcar a ele mesmo, se achar que, na venda, pode ganhar algum dinheiro”.

Atenciosamente,

Michael Moore

MMFlint@MichaelMoore.com
27/10/2011

Tradução do coletivo da Vila Vudu










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domingo, 15 de abril de 2012

A Perpetuação da Pobreza



A Perpetuação da Pobreza
Carta Capital nº 692 de 11/04/2012 - Drauzio Varella
http://www.cartacapital.com.br/saude/a-perpetuacao-da-pobreza/



"A falta de acesso ao planejamento familiar é a mais odiosa de todas as violências
que a sociedade brasileira comete contra a mulher pobre".



As periferias das cidades brasileiras parecem umas com as outras: casas sem reboco, grades de segurança, fios elétricos emaranhados, vira-latas e criançada na rua. Há 13 anos faço programas de saúde para a televisão. Procuro gravá-los nos bairros mais distantes, por uma razão óbvia: lá vivem os que mais precisam de informações médicas.



Daniel Garcia/AFP


Esta semana, como parte de uma série sobre primeiros socorros, gravamos a história de um menino de 2 anos que abriu sozinho a porta do forno, subiu nela e puxou do fogo o cabo de uma panela cheia de água fervente. A queimadura foi grave, passou duas semanas internado no hospital do Tatuapé, em São Paulo. Situada na periferia de Itaquera, a casa ocupava a parte superior de uma construção de dois andares. Subi por uma escada metálica inclinada e com degraus tão estreitos, que precisei fazê-lo com os pés virados de lado.

A porta de entrada dava numa cozinha com o fogão, a geladeira, as prateleiras com as panelas e uma pequena mesa. Um batente sem porta separava-a do único quarto, em que havia dois beliches, um guarda-roupa e uma divisória de compensado que não chegava até o teto, atrás da qual ficava a cama em que dormiam o pai e a mãe.

Nesse espaço exíguo viviam dez pessoas: o casal, seis filhos e dois netos. Os filhos formavam uma escadinha de 2 a 17 anos; os netos eram filhos das duas mais velhas, que engravidaram solteiras. O único salário vinha do pai, pedreiro. Por falta de pagamento, a luz tinha sido cortada há dois meses, os 300 reais da dívida a família não sabia de onde tirar.

No fim da gravação perguntei à mãe, uma mulher de 38 anos que pareciam 60, por que tantas crianças. Disse que o marido não gostava de camisinha, e que a existência dos netos não fora planejada, porque “essas meninas de hoje não têm juízo”.

Na periferia do Recife, de Manaus, de Cuiabá ou Porto Alegre a realidade é a mesma: a menina engravida em idade de brincar com boneca, para de estudar para cuidar do bebê que já nasce com o futuro comprometido pelo despreparo da mãe, pelas dificuldades financeiras dos avós que o acolherão e pelos recursos que terá de dividir com os irmãos.

Na penitenciária feminina, quando encontro uma presa de 25 anos sem filhos, tenho certeza de que é infértil ou gay. Não são raras as que chegam aos 30 anos com seis ou sete. Não fosse o tráfico, que alternativa teriam para sustentar as crianças?

Já escrevi mais de uma vez que a falta de acesso aos métodos de controle da fertilidade é uma das raízes da violência urbana, enfermidade que atinge todas as classes, mas que se torna epidêmica quando se dissemina entre os mais desfavorecidos. Essa afirmação causa desagrado profundo em alguns sociólogos e demógrafos, que a acusam de forma leviana por não se basear em estudos científicos. Afirmam que a taxa de natalidade brasileira já está abaixo dos níveis de reposição populacional.

É verdade, mas não é preciso pós-graduação em Harvard para saber que as médias podem ser enganosas. Enquanto uma mulher com nível universitário tem em média 1,1 filho, a analfabeta tem mais de 4. Enquanto 11% dos bebês nascem nas classes A e B, quase 50% vêm da classe E, com renda per capita mensal inferior a 75 reais.

De minha parte, acho que faz muita falta aos teóricos o contato com a realidade. Há necessidade de inquéritos epidemiológicos para demonstrar que os cinco filhos que uma mulher de 25 anos teve com vários companheiros pobres como ela, correm mais risco de envolvimento com os bandidos da vizinhança do que o filho único de pais que cursaram a universidade? Convido-os a sair do ar condicionado para visitar um bairro periférico de qualquer capital num dia de semana, para ver quantos adolescentes sem ocupação perambulam pelas ruas. Que futuro terão?

A falta de acesso ao planejamento familiar é a mais odiosa de todas as violências que a sociedade brasileira comete contra a mulher pobre.



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Drauzio Varella










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domingo, 1 de abril de 2012

18h00 e a Caneta Caiu! (vida corporativa)


18h00 e a Caneta Caiu!

Fonte:  Blog Bullyingscorporativos - Postado por Alberto Roitman

Talvez uma das pressões mais sofridas pelos colaboradores brasileiros e caracterizadas como bullying corporativo, seja aquela motivada pelo fato do funcionário deixar sua estação de trabalho quando batem ás seis horas da tarde (ou o horário em que sua jornada chegou ao fim). Principalmente nos níveis gerencias é quase uma afronta ás normas internas o colaborador levantar-se sua cadeira e deixar a empresa quando o sino bate ás 18h00.

Comentários do tipo: “Está desmotivado”, “Este aí não veste a camisa”, ou “Ele não quer crescer”, são comumente ouvidos no ambiente de trabalho e atribuídos ao funcionário que não extrapola o horário, assim como todos aqueles “pseudo workaholics” deveriam fazer.

Tal comportamento muitas vezes é velado e não se traduz em comentários como os que acabamos de ler. Basta uma rápida troca de olhares entre os colegas, ou até mesmo o sinal de apontar para o relógio de pulso ou na parede, para configurar a interpretação de que “a caneta caiu e o colega já saiu”.

A saída no horário de trabalho é julgada por muitos como uma clara demonstração de desinteresse do funcionário pelo trabalho, pela carreira ou pela empresa. E este julgamento têm se tornado cada vez mais intenso e caracterizado como divisor de águas entre aqueles que merecem ou não merecem crescer profissionalmente.

Os colaboradores que deixam a empresa no horário determinado estão cumprindo o combinado. Imaginem um mundo onde todos cumprissem o combinado. Não haveria inadimplência. Não haveria tantas ações judiciais. Diversos casamentos não teriam acabado. Muitas mortes teriam sido evitadas.

Porém, cumprir o combinado, de tempos para cá, se tornou o grande problema. Qualquer livro de dicas para um futuro presidente de empresa diz que é necessário sempre fazer mais do que o combinado. “O combinado todo mundo faz, mas quer ser presidente? Trabalhe até altas horas, abra mão do tempo em que deveria ficar com sua família e abandone a qualidade de vida”. E assim foi, com muita gente acreditando.

Segundo a Consolidação das Leis do Trabalho, a relação firmada entre o colaborador e a empresa deve ser registrada na carteira de trabalho. E nela, estão informados, além da função e do salário, o horário de trabalho do colaborador. Portanto, há um acordo claro, em que tanto o empregador quanto o empregado sabem o tempo que o mesmo deverá estar á disposição da empresa.

De alguns anos para cá esta relação começou a sofrer descompensações. As promoções começaram a ser atribuídas para aqueles que trabalhavam muito, e não necessariamente para aqueles que trabalhavam com qualidade. Isso somado ao fato de que, para alguns autores, o sucesso corporativo está totalmente atrelado a histórias de esforço descomunal ou dedicação mais do que exclusiva a um empregador. Porém, tais literaturas não sabem ainda lidar com o fato do trabalhador, que cumpriu a risca a receita de bolo, mas que não triunfou. Aquele que se dedicou demais e abriu mão do tempo com a família, e mesmo assim, não chegou lá. Talvez, para esses casos, seja melhor indicar um profissional para cuidar da depressão.

A verdade é uma só. Aqueles que saem quando as 18h00 batem, estão certos. Aqueles que se envergonham de levantar quando o sino toca e procuram serviço para justificar um tempinho a mais para fazer a “média com a chefia” é quem estão errados.

Três explicações podem justificar o fato do colaborador precisa ficar até mais tarde constantemente. Gostaria de chamar estas explicações de anomalias:

Anomalia 1) O colaborador não tem habilidades, conhecimentos ou atitudes necessárias para fazer o trabalho no horário determinado, portanto, é incompetente para tal, e não faz o que deveria ser feito no tempo determinado. Tal incompetência nem sempre está atrelada ao fato do trabalhador não saber fazer o trabalho em si, mas permitir se envolver em outras atividades, tais como reuniões excessivas, que contaminem o tempo necessário para a realização das atividades “core”. Portanto, se o mesmo fica na empresa, por repetidos dias, além do horário de trabalho acordado, significa que a escolha deste profissional para que realizasse tal trabalho não foi adequada. Desta forma, precisa de treinamento, ou em algumas alternativas, ter sua tarefa retirada e repassada para outro profissional mais competente. Neste caso, a culpa é atribuída ao funcionário e compartilhada por seu líder, que não escolheu o profissional adequado para tal tarefa.

Anomalia 2) O líder direciona trabalho em demasia a um colaborador, sendo impossível que o mesmo seja feito dentro do horário estabelecido. Esta seria a justificativa mais comum a ser ouvida pelo colaborador se perguntarmos por que o mesmo fica até tarde: “Por que meu chefe me despeja trabalho”. Claro, dependendo da quantidade de tarefas a serem realizadas, seria impossível entregá-la dentro das 8 horas estabelecidas pela lei. Com isso, nossa análise se centra em 3 grandes culpados. O primeiro, o próprio colaborador, que, amedrontado por uma possível represália em  recusar o serviço, o aceita sorrindo. Além disso, diversas situações ocorrem em que o profissional entende que quanto mais serviço tiver, mas importante será, ou maior exposição terá. Neste caso, recomendo ás equipes de Recrutamento e Seleção instalarem um “mata burro” na porta da empresa, para evitar que se contratem profissionais com esta mentalidade. Precisamos muito mais de qualidade do que quantidade. Em segundo lugar, novamente, a culpa do líder direto que despeja a quantidade irregular de trabalho em seus colaboradores. Quer medir se seu colaborador é um bom líder? Visite a estação de trabalho dele as 18h30. Se houver uma quantidade enorme de pessoas da sua equipe trabalhando, bingo, seu funcionário não sabe delegar. Um forma adequada de medir um líder em uma organização é avaliar a qualidade de vida corporativa de sua equipe. Uma avaliação 360º é mais do que necessária uma vez ao ano. Mas empresas que não a fazem, invariavelmente têm medo de lidar com os possíveis resultados. Em terceiro lugar, a culpa é da empresa, que mesmo sabendo que os colaboradores estão trabalhando mais do que deveriam, omitem-se e acham isso lindo.

Anomalia 3) O colaborador tem problemas pessoais fora da empresa e não quer ir para casa. Neste caso, a empresa tem a obrigação de avaliar se o mesmo precisa amparo psicológico ou de outro profissional para a solução de seus problemas. De qualquer forma, se a casa do funcionário não for o melhor ambiente para ele querer estar, a empresa não poderá substituí-la.

Por sua vez, o profissional que deixa a empresa no horário combinado pode não estar desmotivado, como a maioria dos colegas alega. Segundo o Ministério da Educação, em 2010, 27% dos executivos de média gerencia estavam fazendo algum tipo de pós-graduação ou curso de aperfeiçoamento profissional. Segundo o Ministério da Saúde, 38% das famílias brasileiras têm algum ente com a saúde debilitada, que necessitem cuidados médicos e acompanhamento constante familiar. 68% da população mundial, pasmem, isso não é pouco, tem fortes problemas com insônia. 50% da população brasileira mora a mais de 10 kilometros do local de trabalho, o que se tratando de uma grande capital, significa por volta de 1 ou 2 horas de deslocamento no trânsito todos os dias. Isso sem falar na quantidade de pessoas que possuem um “segundo turno”, como professores em faculdades, pesquisadores, músicos que ganham uma caixinha extra fazendo uma apresentação aqui, ou acolá...

Portanto, aquele que vai embora no horário, invariavelmente vai estudar, tem alguém doente na família, está com déficit de sono, mora longe ou está tratando de ganhar um pouco mais. Errado está você, em ficar com a caixa de email aberta, dando refresh para ver se cai algum pepino para ser resolvido. Motivação não se mede pelo horário de trabalho, mas sim, pela qualidade da entrega.

Os que deixam a empresa no horário combinado são aqueles que podem estar mais motivados com seu trabalho, até porque fazem o mesmo no horário combinado, empregam a qualidade necessária para tal, e com isso, esperam serem recompensados para isso. Errado mesmo são aqueles que ficam. Portanto, se da próxima vez, você ouvir a velha frase: “Está desmotivado?” quando estiver saindo ás 18h00, agora você pode responder: “Não meu amigo(a), quem está com algum problema é você!”

Quer melhorar sua vida corporativa? Comece saindo no horário!


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